SONHEI QUE ESTAVA SONHANDO UM SONHO SONHADO: os sentidos dos sonhos

 Por Wagner Menezes - Historiador e Psicanalista


“O sonho é a reverberação de memórias do passado na forma de expectativas quanto ao presente e até o futuro.”  (Sidarta Ribeiro, neurocientista.  O Oráculo da noite.  São Paulo : Cia das Letras,  p.294.)

Salvador Dali.  A persistência da memória, 1931.


Apresentação     

         

    O objetivo dessas linhas é apresentar uma visão geral sobre os sonhos, especialmente sob a ótica psicanalítica, mas sempre levando em consideração algumas das últimas descobertas das neurociências.

    Durante milhares de anos os sonhos estiveram em primeiro plano e sua interpretação era fundamental para a organização social das pessoas, das famílias, dos grupos sociais e até de Estados. Entretanto, com o advento do capitalismo industrial, os sonhos foram relegados a algo sem nenhuma serventia; um capricho da mente.

    Contudo, há 123 anos, o médico e neurologista Sigmund Freud, analisando os sonhos de seus pacientes, chegou à conclusão de que os sonhos tinham sentidos. Por isso, após ampla pesquisa, escreveu o livro que funda a psicanálise e inaugura o século XX: A Interpretação dos Sonhos, publicado em 1900.[i]

    Hoje, as neurociências avançaram muito nas pesquisas sobre os sonhos. Sem negar Freud na sua definição de sonhos, nas técnicas para sua interpretação e na construção de conceitos, o neurocientista Sidarta Ribeiro vem concluindo que os sonhos podem ser muito mais do que realização de desejos reprimidos e/ou recalcados, mas sempre uma realização de desejos, não necessariamente inconscientes.

Sonhos

Salvador Dali.  O Sono, 1937.

         

   

    Sonhos são fenômenos neuropsíquicos, que deveriam ser levados muito a sério. Tais fenômenos são gerados a partir de uma relação intricada entre mente e cérebro; entre consciente, pré-consciente e inconsciente; entre o eu, o id e o supereu. Durante o sonho neurotransmissores entram em ação para trabalhar memórias, afetos, vivências e aprendizados.

    As principais funções dos sonhos são resguardar o sono, selecionar e consolidar memórias. Mas o entendimento dos sentidos dos sonhos pode fazer muito mais pela vida de cada sonhador do que pode ele imaginar. Para tanto, é necessário aprender a interpretá-los, mesmo que na prática não seja possível conhecer todos os seus segredos e mensagens.[ii]

         Freud definiu sonhos de forma geral como:


 “(...) atos psíquicos tão importantes quanto quaisquer outros; sua força propulsora é, na totalidade dos casos, um desejo que busca realizar-se; o fato de não serem reconhecíveis como desejos, bem como suas múltiplas peculiaridades e absurdos, devem-se à influência da censura psíquica a que foram submetidos durante o processo da sua formação; à parte a necessidade de fugir a  essa censura,  outros fatores que contribuíram para sua formação foram as exigências de condensação de seu material psíquico, a consideração a sua representabilidade em imagens sensoriais e – embora invariavelmente – a demanda de que a estrutura do sonho possua uma fachada racional e inteligível”. (Freud: Vol V, p.564).

        


    A função neurológica dos sonhos é a reativação ds memórias, uma vez que esta é a sua base formadora. Esse trabalho de processamento e elaboração de memórias também é a base dos aprendizados. Mesmo os chamados “restos diurnos”, que estão quase sempre presentes nos sonhos, também se constituíram como memórias. Mas quais memórias? Todas, mesmo aquelas das quais, conscientemente, não se tem lembrança. Isso porque todo sujeito está imerso em conjuntos de memórias concêntricas: as suas memórias, as de seus familiares e as da cultura em que está imerso. Tudo isso passando de geração para geração.

    Os restos diurnos, pedaços de lembranças que foram captados pelo cérebro por meio dos sentidos, servem para a montagem das cenas que ocorrem durante o sonho, tal como um conjunto de fotogramas que estabelecem a ligação entre conteúdos latentes, aparecendo na tela da mente como o seu conteúdo manifesto. Todos os restos diurnos podem servir para expor o conteúdo inconsciente, reprimido ou recalcado, montados como numa longa tira de fotogramas de rolos de filmes diferentes para contar uma outra história. A este conteúdo inconsciente a psicanálise também denomina “conteúdo onírico”.


Ronaldo Torquato.  Peixe Biomecânico, 200

    O neurocientista Patrick McNamara, um dos supervisores da Plataforma Dreamboard, que reúne mais de 250 mil relatos de sonhos, chegou às seguintes conclusões, as quais reforçam a importância dos restos diurnos: 1) Os sonhos das pessoas são mais semelhantes do que diferentes, independentemente da cultura; 2) Como Freud já havia dito em 1900, há uma continuidade temática entre a vigília e o sonho; 3) Os sonhos são espaços privilegiados para a simulação contrafactual, o que significa tratar-se de situações que não aconteceram, mas que poderiam acontecer, ou seja, uma espécie de cálculo probalístico. O cérebro tem plena capacidade de fazer, com muita eficiência, cálculos complexos sobre os cenários futuros possíveis, muito mais precisos quanto maiores forem as variáveis existentes.  Em suma, um teste de realidade: o que possivelmente aconteceria se eu fizesse acontecer?

    Para as neurociências, todo mundo sonha o tempo todo durante o sono, com exceção daquelas pessoas que tem uma lesão em uma região específica do cérebro. Ainda que não nos lembremos ao acordar, sonhamos.

Alguns sonhos são mais complexos, elaborados e descritivos, tal como uma história, porque ocorrem na fase REM (Rapid Eyes Moviment). Do ponto de vista neurofisiológico, 90% dos sonhos ocorrem nesta quarta fase do sono, a última fase antes do despertar. Há uma explicação neurocientífica para isso: na fase REM os níveis de noradrenalina são muitíssimos reduzidos, o que permite a redução da fragmentação do enredo onírico, a evitação das resistências inconscientes e a liberação de conteúdos reprimidos ou recalcados. Na fase REM do sono, a razão crítica é totalmente adormecida e a memória, bem como a criatividade são potencializadas, inclusive porque há uma maior oxigenação do cérebro como preparação para o despertar.

    Nas fases não-REM, os níveis de noradrenalina são maiores, gerando essas alterações. Nelas, os sonhos se apresentam como pedaços de histórias; são imagens entrecortadas, confusas e distorcidas. Nessa fase, os restos diurnos não formam uma história com alguma conexão entre as partes, como ocorre na fase REM, na qual os sonhos são histórias praticamente completas, com começo, meio e fim. Essas histórias podem ser metafóricas, metonímicas, típicas ou probalísticas. Aqui, cabe lembrar que, para o cérebro, não há diferenças entre estar sonhando ou estar acordado.

    Vale ressaltar que recentes descobertas das neurociências, já haviam sido deduzidas por Freud ao afirmar que os sonhos, ainda que sejam realizações de desejos, pertencem ao sistema consciente. Isso significa dizer que o cérebro vivencia a cena onírica como se real fosse. Apesar de assim o ser, as áreas relacionadas à motricidade são “desligadas” para o caso de se sonhar voando, ou que se tem a habilidade de voar, o sonhador não se lance pela janela, pondo-se em perigo. Ora, se ele vivencia uma cena onírica dessa forma, é possível que a resistência à liberação de conteúdos inconscientes recalcados, especialmente aqueles relacionados a desejos inconfessáveis, gerem um certo estresse, ao ponto de distorcer, fragmentar e desconectar as cenas durante o sono.

Octávio Araujo.  Natália.  Litografia de 1972

Algumas Considerações Finais


    Sonhar, contar o sonho e elaborá-lo é tão importante para a saúde mental das pessoas que a evolução da espécie gerou até o day dream, a fim de que o indivíduo sonhe acordado, devaneie, imagine. Com a imaginação, podemos viajar no tempo sem sair do lugar; podemos experimentar sem nos colocarmos em risco. Com os sonhos, durante o sono, a mesma coisa. E é exatamente por isso que o milenar hábito dos grupos humanos pré-industriais de se reunirem para contar os sonhos e tentar entender os seus sentidos deveria ser recuperado pelas sociedades contemporâneas. Contar um sonho por si só exercita a chamada “consciência secundária”. Por meio dela, os sujeitos exercitam as fantasias de autorrepresentação.

    Agora que já sabemos que todo mundo sonha, para sonhar e lembrar do sonho, antes de dormir repita para si mesmo: “Vou sonhar, acordar, lembrar e anotar”. Depois do quinto ou sétimo dia fazendo isso, me conta o que aconteceu! Para não se esquecer do sonho assim que acordar, não se levante imediatamente, a fim de evitar a descarga de dopamina que irá nublar a sua memória e, ainda deitado, se possível for, anote qualquer coisa que lembrar dos sonhos, bem como o sentimento ou o afeto que este sonho produziu em você.

    Vamos aos sonhos...



[i] FREUD, Sigmund.  A interpretação dos sonhos. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição Standard brasileira.  Vol. V.  Rio de Janeiro : Imago, 1996

[ii] Esse exercício de interpretação de sonhos ficará para um próximo texto.

Obs: O título desse texto é um trecho da letra do samba enredo da G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel de 1980.  Composição: Martinho Da Vila, Rodolfo De Souza E Tião Grande


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