O Dilema do Fim da Análise: Estamos presos ou existe uma saída?
O Dilema do Fim da Análise: Estamos presos ou existe uma saída?
Por Wagner Chagas de Menezes
Apresentação
A rigor, a grande dúvida que paira sobre quem vai para o divã é: isso tem fim? Existe um "diploma de curado" onde os sintomas desaparecem para sempre, ou a análise é uma jornada infinita, já que o nosso inconsciente nunca para de produzir novidades?
Neste texto, vamos confrontar a visão do "pai" da psicanálise, Sigmund Freud (06/05/1856 - 23/09/1939), com a releitura revolucionária de Jacques Lacan (13/04/1901 - 09/09/1981). Chamaremos esse problema de o "dilema do fim": se a descoberta sobre nós mesmos pode ser infinita, em que momento podemos dizer "chega, o trabalho está feito"?
A Descoberta de Freud (1937): O Muro da Biologia
Já no final da vida, em um texto célebre chamado "Análise terminável e interminável", Freud tentou definir quando o tratamento acabava. A conclusão dele foi pessimista: o processo encontra limites naturais que impedem uma "cura" perfeita e blindada.
Para Freud, a análise corre sempre o risco de recaídas devido a três fatores principais:
A Ilusão da "Limpeza" Total: A análise terminaria quando o analisante resolvesse seus sintomas e fortalecesse seu "Eu" (sua consciência) para domar seus impulsos. O objetivo aqui seria buscar o melhor arranjo possível para viver em sociedade, e não a perfeição divina.
A Força do Hábito (Resistência): A mudança depende da energia vital de cada um. Muitas vezes, traços de personalidade já ficaram tão rígidos e "autônomos" que o analisante resiste à mudança simplesmente porque "sempre foi assim".
A Rocha da Castração (O Limite Biológico): Aqui Freud encontra um muro. Ele acreditava que existe algo na nossa natureza biológica que a fala não consegue mudar. O corpo fala e impõe um limite final:
Na Mulher: A insatisfação por sentir que lhe falta algo (o poder simbólico).
No Homem: A recusa teimosa em aceitar qualquer passividade ou submissão (o medo de ser "feminino").
Portanto, para Freud, a análise seria, em tese, interminável porque esbarramos na biologia. É aqui que precisamos ser críticos: Freud, objetivamente, parece ter esquecido a outra base de sua própria teoria — a Cultura.
Neste caso, ao focar só na biologia, Freud joga o analisante no que chamo de Escada de Penrose. Sabe aquela ilusão de ótica famosa, com degraus que formam um quadrado? Você tem a sensação de que está subindo, subindo e subindo, mas está andando em círculos num loop infinito. Aceitar essa visão freudiana ao pé da letra é condenar a análise a ser um mecanismo ineficaz de defesa: você analisa, analisa, mas nunca sai do lugar em função da racionalização.
É preciso lembrar que o homem não vive só de biologia; vivemos mergulhados na Cultura. É o convívio social que permite pegar esses impulsos biológicos e dar a eles um destino mais nobre — na arte, na ciência, na política — em vez de ficar girando em torno do próprio umbigo.
Lacan e a Saída Pela Ética: O Fim das Ilusões
Jacques Lacan, relendo Freud, propõe uma saída para esse beco. Ele tira o foco da biologia e o coloca na linguagem e na ética. Para ele, o fim da análise não é ficar "forte", mas cair na real.
Lacan substitui a ideia de "cura" pelo que ele chama de Ato Psicanalítico. As lições dele para o fim da linha são:
a) O Fim das Ilusões: A análise acaba não quando você para de sofrer, mas quando você para de acreditar nas suas próprias fantasias de salvação. Você atravessa a sua "fantasia fundamental" — aquela historinha que você contava para si mesmo para justificar sua vida.
b) Encarar o Vazio (O Objeto a): O sujeito descobre que existe um "furo" no ser humano que nada preenche. Não adianta comprar o carro novo, ter o parceiro perfeito ou o emprego dos sonhos; a falta sempre estará lá. Entender isso é libertador: você para de correr atrás da cenoura inalcançável.
c) A Queda do Mestre: O analisante destrona o "Sujeito Suposto Saber". No início, achamos que o analista é um mestre, um guru, um pai que tem as respostas. O fim da análise acontece quando percebemos que o analista é apenas uma pessoa, tão faltosa quanto nós. O analista desce do pedestal.
d) O Teste do Passe: Para provar que isso aconteceu de verdade nos círculos lacanianos, criou-se o "Passe". Um ritual para verificar se a pessoa realmente transpôs a rocha biológica de Freud através de uma decisão ética e se tornou capaz de ser analista de si mesma.
Considerações Finais
Podemos concluir que esperar o analista dizer "você está pronto" é ineficaz. O que torna a análise terminável é um ato de coragem do próprio sujeito. É como sair da Caverna de Platão: você sabe que voltar para a escuridão da neurose seria um retrocesso, uma "morte" simbólica.
O sujeito passa a ser senhor de si. A energia criativa de natureza sexual, denominada libido, que antes gastava tentando resolver conflitos impossíveis, agora é usada para viver a vida, aceitando que somos incompletos e finitos. Nesse momento, o analista deixa de ser um "pai herói" e vira um semblante, uma ferramenta que foi útil e agora pode ser deixada de lado. O analisante aprendeu a ser pai e mãe de si mesmo.
Para encerrar, conto algumas histórias que ilustram isso melhor que qualquer teoria:
O Adeus Onírico: Uma analista experiente me contou sobre um analisante exemplar que estava a cinco anos em terapia. Um dia, ele entrou na sessão e disse: "Sonhei que vinha aqui, tocava a campainha, apertava sua mão e ia embora. Então, vim fazer isso. Obrigado". E foi-se. A análise terminou ali, com perfeição.
A Queixa Eterna: Um colega tem um analisante há 20 anos. Culto, inteligente e com excelente formação acadêmica, ele já estava há duas décadas reclamando da mesma crise conjugal, sem nunca se separar nem resolver. Esse é o caso da análise interminável freudiana: ele usa a terapia para não ter que agir.
O Cabo de Guerra: Um homem de 50 anos passava as sessões brigando com o analista como se brigasse com o pai. Num dia de fúria, o analista propôs: "Vamos marcar uma sessão em que seu pai estará presente para discutirmos a três!". O homem estancou: "Você está louco? Meu pai morreu há 20 anos!". Naquele momento, a ficha caiu: ele brigava com um fantasma.
Qual é o seu caso? Sua análise tem fim ou é um refúgio eterno? Quem deve decidir isso: você ou seu analista? Se você pensou "meu analista", sinto informar, mas você ainda tem uma boa caminhada pela frente.
E se, de repente, você começasse a assumir o comando dessa história?
Fontes:
FREUD, Sigmund. Análise terminável e interminável (1937). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XXIII. Rio de Janeiro : Imago, 1996, p.225-270.
_______________. O mal-estar da civilização ( ). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. XXI. Rio de Janeiro : Imago, 1996, p.73-148.
LACAN, Jacques. Proposição de 9 de Outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola. Disponível em: https://www.traco-freudiano.org/tra-lacan/proposicao-9outubro/proposition-9out1968.pdf
MILLER, Jacques-Alain. O método psicanalítico. Curitiba, 1987. In: LACAN, Jacques. Lacan elucidado: palestras no Brasil. Tradução de Sérgio de Azevedo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 248-268.
P.S.: Este texto foi em sua totalidade originalmente escrito pelo autor e, posteriormente, o português foi revisado por Gemini IA.

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