A GUERRA ENTRE A RÚSSIA E A UCRÂNIA: a serpente, seus ovos e seu ninho em alguns arquivos da ONU
Por Wagner Chagas de Menezes, em 26/04/2023
Apresentação
Recentemente, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi criticado pela mídia privada corporativa por também ter colocado nas costas da OTAN a responsabilidade pela invasão da Ucrânia pela Rússia.
Este desenlace bélico foi sendo construído lentamente dentro do território ucraniano bem antes de 2014, quando eclodiu a revolta colorida denominada Euromaidan (Primavera Ucraniana: 2013-2014) contra um governo democraticamente eleito, mas que por ser próximo da Federação Russa, começou a ser sabotado por agentes da inteligência norte-americana e até mesmo seus altos funcionários. Contudo, os documentos públicos da ONU já apontavam a construção do conflito pelo menos a partir de 2005, como demonstram algumas fontes aqui apresentadas. Há dezenas de outras interligadas, mas que sua análise fugiria ao objetivo desse texto.
Também é interessante ressaltar que, até o presente momento, encontrei pouquíssimas fontes secundárias nas quais especialistas ou jornalistas tenham se debruçado sobre as fartas fontes primárias sobre esse tema e que se encontram nos arquivos eletrônicos da ONU. Dentre as exceções, destaco a matéria da Revista Forum (https://revistaforum.com.br/global/2022/2/25/somente-eua-ucrnia-votaram-contra-resoluo-da-onu-de-combate-ao-nazismo-110706.html.) Aqui, a não escolha pela verdade das narrativas também é uma escolha.
É fato que no interior da estrutura política e militar ucraniana, células protonazifascistas, como as que formariam o chamado Batalhão Azov, entre outras, foram sendo financiadas e treinadas de fora para dentro e ganhando protagonismo.
Os ataques sofridos pelo Presidente Lula fazem parte do jogo político internacional para impedir a construção de uma narrativa outra, diferente daquela controlada pelo Departamento de Estado Norte-americano e os órgãos de relações internacionais da União Europeia.
O objetivo desse texto é demonstrar por meio de fontes oficiais da ONU que, desde 2018, a Federação Russa já vinha alertando a ONU para o dramático crescimento de grupos nazifascistas na Ucrania e da simpatia e aproximação do governo ucraniano por esses grupos terroristas. Como também historiador, não poderia me privar do compromisso que tenho com a História e sua escrita, por meio de fontes e sua interpretação no tempo e no espaço. Seguem as fontes e nossos comentários...
A advertência russa
No dia 18/12/2018, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução A/RES/73/157, tendo como base o informe da Terceira Comissão (A/73/587), cuja essência era “Combatir la glorificación del nazismo, el neonazismo y otras prácticas que contribuyen a exacerbar las formas contemporáneas de racismo, discriminación racial, xenofobia y formas conexas de intolerância” (Resolução: https://documents-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N18/448/47/PDF/N1844847.pdf. )
A Terceira Comissão (A/73/587) produziu a Acta resumida da 48ª sessão, a qual ocorreu em 15/11/2018, uma quinta-feira, às 10hs, na sede da ONU em NY. Essa Ata ganhou o código A/C.3/73/SR.48, na qual se encontram as defesas da proposta, os votos e algumas declarações de votos, especialmente a dos EUA e da Ucrânia, referentes ao Projeto de Resolução A/C.3/73/L.53/Rev.1 (https://documents-ddsny.un.org/doc/UNDOC/LTD/N18/358/68/PDF/N1835868.pdf?OpenElement).
Foi neste projeto que o representante da Federação Russa, o senhor Rinat Aliautdinov (1958- Russia's Permanent Representative to UNESCO), defendeu suas razões, cuja essência foi o combate à glorificação do nazismo no bojo da proposta maior de eliminação do racismo, da discriminação racial, da xenofobia e das formas conexas de intolerância. Na defesa da proposta expôs suas razões: “Algunos países han elevado la glorificación del nazismo a la categoría de política estatal: en el corazón de Europa se cometen ataques contra monumentos a héroes que lucharon contra el fascismo; se celebran marchas para conmemorar a los nazis y a sus colaboradores, mientras que los nacionalistas realizan procesiones con antorchas que recuerdan a las reuniones que tenían lugar en la Alemania hitleriana; se han develado monumentos a personas que cometieron crímenes de guerra o de lesa humanidad en colaboración con la Alemania hitleriana; se ha cambiado el nombre de calles, plazas, escuelas y otros edificios públicos en honor a colaboradores nazis; y las personas que lucharon contra la coalición antihitleriana o colaboraron con los nazis son ensalzadas como héroes nacionales o paladines de la liberación nacional. Estas actitudes violan claramente las obligaciones de los Estados Miembros en virtud de la Carta de las Naciones Unidas.” (https://digitallibrary.un.org/record/3792449?ln=fr. Texto em Espanhol, p.7/17)
Essa reunião se deu quase quatro anos antes do início das operações militares envolvendo a Rússia versus a Ucrânia+EUA+EU/OTAN. Isso não lhe causa estranheza ou desconfiança?
Dentre todos os países que votaram neste Projeto, somente dois países votaram contra: exatamente a Ucrânia e os Estados Unidos da América.
O voto estadunidense e a declaração de voto se deram por meio de sua representante, a senhora Kelley Eckle-Currie, e começou com uma confissão de culpa, na medida em que reconhece que a Federação Russa há muito tempo, desde 2005, vem apresentando tal proposta e sem sucesso. Em outras palavras, ela reconhece que a Federação Russa já havia notado e vinha denunciando a presença e o crescimento de células neonazistas no coração da Europa. O mais grave ocorreu quando em seu voto contra a proposta de combater a glorificação nazifascista, entre outras propostas, ela defendeu que havia “partes do texto que, em suas palavras "(...)violavam a liberdade de expressão, pensamento ou associação”.
As democracias do pós-guerra já haviam concluído, desde o Tribunal de Nuremberg (1945-6), que o direito universal à liberdade de expressão, pensamento ou associação não se aplica às ideologias nazistas e fascistas (aqui incluímos o período stalinista da ex-URSS), exatamente porque suas doutrinas e ações visam exatamente usar as liberdades concedidas pelas democracias para sufocar e destruir a própria democracia. Em outras palavras, não se pode usar esse argumento para cometer crimes tipificados em leis, acordos, tratados e outros ordenamentos juridicos. A História já demonstrou, sem questionamentos, que entender as manifestações nazifascistas, como tentou fazer crer a fala da representante dos EUA, como liberdades, terminou exatamente com o fim das liberdades individuais, das minorias e das vertentes do pensamento político que a elas se opuseram.
Em determinado trecho da declaração de voto dos EUA, eles propõem a retirada da expressão “por qualquer forma” do seguinte trecho: “Expressa profunda preocupação por qualquer forma de glorificação do movimento nazi, do nazismo e de quem foram em seus dias membros da organização Waffen-SS, por meios como a construção de monumentos comemorativos e a organização de manifestações públicas para glorificar o passado nazi, o movimento nazi e o neonazismo (...)” (A/C.3/73/L.53, p. 3/11). Então, o que isso significa? O texto subliminar dessa proposição quer dizer que se “por qualquer forma” é vedado, significa que ‘algumas formas’ de manifestações nazistas são possíveis, são aceitáveis? Não! Nenhuma forma de manifestação, expressão ou ações nazistas são aceitáveis!
A Senhora Eckels-Currie, ainda propõe a supressão de todo o parágrafo 15 do preâmbulo da Proposta de Resolução A/C.3/73/L.53. Esse parágrafo diz o seguinte: “Sublinha que o nazismo é algo mais que a mera glorificação de um movimento já ocorrido; é um fenômeno contemporâneo com fortes interesses na desigualdade racial que tem centrado seus esforços em obter um apoio amplo para suas falsas afirmações de superioridade racial (...).” (A/C.3/73/L.53, p. 5/11).
Continuando, o voto dos EUA é uma sucessão de tergiversações, distorções e desvios semânticos, preenchidas com juízos de valor sobre o caráter da proposta em questão. Nesse caso, é aconselhável a quem quiser se aprofundar no conhecimento desse debate, ler toda a Proposta de Resolução para se ter uma noção exata do que aqui está escrito. Em sua fala, não obstante o objetivo claro, preciso, conciso e inequívoco da proposta da Federal Russa, em um rompante de desfaçatez, Kelley Eckels Currie defendeu que a solução para combater a glorificação do nazismo e as organizações neonazistas é, pasmem! “(...) um mercado livre de ideias e de expressão, onde os valores da tolerância e da justiça triunfem sobre a maldade e o ódio. O melhor antídoto contra o discurso ofensivo é a liberdade de expressão, e não as proibições, a censura e o ajuizamento penal” (A/C.3/73/L.53, p. 5/11).
Entendemos que cometer crimes tipificados pela lei; atentar contra o contrato social tácito; ameaçar pessoas e instituições, produzir; e disseminar fakenews com resultados lesivos ao indivíduo e à coletividade para obter vantagens econômicas e políticas sob o argumento de estar exercendo sua liberdade é muito arriscado para as democracias e elas podem e deveriam ser implacáveis contra essa tática ideológica
A história política da humanidade, desde a Grécia Antiga está repleta de exemplos de como os intolerantes, os fascistas, os nazifascistas, os tiranos, os ditadores e seus regimes se aproveitam exatamente das liberdades democráticas, incluindo a liberdade de expressão, para chegar ao governo e ao poder para, então, suprimir todas as liberdades daqueles que a eles se opõem. Na Grécia Antiga, o próprio Platão usava de suas liberdades democráticas como cidadão para atacar a democracia ateniense e defender a ascenção e instauração de um governo dos “reis filósofos”; Hitler não escondia o seu nojo pela democracia do Governo de Weimar e creditava a ela e a ele as fontes da derrota da Alemanha na Primeira Grande Guerra (1914-1918), da fraqueza e de todos os problemas da Alemanha de entre-guerras; no Brasil, o ex-presidente Jair B., nunca escondeu sua afeição pela ditadura, pelas formas privadas do exercício do poder das armas, pela crítica à democracia e pela impossibilidade de existência de oposições. Mas cabe destacar que tanto Hitler como Jair B. chegaram ao governo por meio das liberdades proporcionadas pelas democracias: Hitler suprimiu pela violência toda a possibilidade de exercício democrático da cidadania e da política; Jair B. não teve esse tempo...mas tentará. .
Voltando à fala da senhora Kelley Eckels Currie (United States’ Representative to the UN Economic and Social Council and Alternative Representative to the UN General Assembly/2017-2018), ninguém lhe perguntou o porquê dela, como representante do governo norte-americano, ter tomado uma posição tão estranha, até mesmo bizarra, se levarmos em consideração que 129 países disseram SIM à resolução e 54 países se abstiveram. (https://digitallibrary.un.org/record/1656166?ln=en.).
Não lhe causa ainda mais estranheza saber que
somente os EUA e a Ucrânia votaram contra uma Resolução tão importante para a
preservação das democracias, da liberdade de pensamento e partidária, para a
defesa de minorias, exatamente contra a ideologia nazista, que levou a
humanidade à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com seus mais de 6 milhões de judeus
assassinados e mais 5 milhões de socialistas, comunistas, sociais-democratas, ciganos, negros, pessoas com problemas mentais ou qualquer outra minoria/oposição/resistência aos regime nazista
e fascista?A recusa em assinar tal resolução não lança uma sombra sobre as verdadeiras intenções da parceria entre os EUA e a Ucrânia após a revolução colorida da Euromaidan, tendo em vista a forte presença de grupos neonazistas nos episódios que levaram ao poder os grupos econômicos e políticos que por hora governam a Ucrânia, tendo o presidente Zelensky como seu porta-voz?
Ao recusar
assinar essa resolução, tanto os EUA como os grupos de poder que subiram ao
governo na Ucrânia pelas mãos do comediante Zelensky, direta ou indiretamente, já não estavam prevendo que a
liberdade para agir de grupos neonazistas seria fundamental para a consecução
de um plano estratégico de instabilização da Europa em relação à Rússia como
palco inicial de provocação à China e à política multipolar de ambos, que se
encontram numa empreitada geopolítica de estabelecimento de uma nova ordem
mundial mais equilibrada?
A Ucrânia ao fechar acordo com os EUA nessa votação, na prática assumiu uma postura complacente e leniente, que significou não reprimir, coibir, investigar, denunciar, processar e condenar os grupos neonazistas, notadamente o Batalhão AZOV e as milícias do Partido Svoboda do neonazista Oleh Yaroslavovych Tyahnybok (1968 -), por exemplos.

Algumas considerações finais
São muitas as questões que podemos depreender dessa votação. Mas não espanta a quem conhece de História e sabe que o capitalismo liberal e, agora, o neoliberal, vêem os grupos nazifascistas como uma ameaça muito menor do que os trabalhadores progressistas organizados, de esquerda ou não, suas organizações sindicais e partidárias. Esses grupos de extremistas de direita funcionam como um freio de emergência do capital contra os trabalhadores na forma de uma ação preventiva.
Foi esse mesmo raciocínio, entre outras causas, que inicialmente levou as democracias liberais
europeias, especialmente na França e na Inglaterra, a tratar Adolf Hitler (1889-1945) e seus
delinquentes como um mal necessário para quebrar a paranoica “ameaça
bolchevique”. Naquele caso, os
resultados dessa leniência todos conhecem: algo como 60 a 70 milhões de seres
humanos, entre civis e militares, morreram para defender a democracia e o então
socialismo soviético. Entre outros
aspectos, parece que, dessa vez, os russos não pretendem deixar os ovos
eclodidos da serpente em ninho ucraniano ir muito além dos seus limites.
Não deveria haver dúvidas de que os EUA e o governo da Ucrânia devem satisfações à toda comunidade internacional do porquê não se opor fortemente à existência do ovo da serpente em território ucraniano. A História e os horrores da II GM, com seus milhões de mortos, sendo que mais da metade era de cidadãos da antiga URSS, deveriam ter sido suficientes para a comunidade internacional ter banido a ideologia nazista e fascista para sempre. Mas não é isso que estamos vendo aqui, ali e especialmente na Ucrânia. Novamente, as potências capitalistas ocidentais, instrumentalizaram os instintos mais primitivos dos homens para tirar vantagens econômicas e geopolíticas
Não se pode falar em paz, estimulando os conflitos, a divisão, a segregação, a perseguição, o racismo etc. Isso é apostar em Tânatos quando deveríamos estar estimulando os valores de Eros.
Onde querem chegar? A um novo conflito global, que coloque a China também na dança da morte? Aqui cabe lembrar uma advertência de Mao Tsé-Tung (1893-1976), que consta do anedotário político: quando o general Douglas MacArthur (1880-1964) sugeriu lançar algumas bombas atômicas sobre a Coréia do Norte (1950-1953), atingindo a fronteira com a China, Dizem que Mao respondeu assim: “Ainda sobrarão 1.000 chineses para repovoar o planeta”, acrescentaria que também sobrariam uns 500 indianos...
Wagner Chagas de Menezes é Mestre em História Moderna e Contemporânea e Psicanalista





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