A POBREZA E A MISÉRIA FAZEM MAL PARA A CABEÇA: a saúde mental também é uma questão social

Por Wagner Chagas de Menezes – Historiador e Psicanalista

 

 


Apresentação

 

            Os efeitos terapêuticos do DMT (dimetiltriptamina), susbstância presente na ayahuasca,  para o tratamento da depressão, assim como seus mecanismos de funcionamento e  sua ação sobre a neuroquímica do cérebro, têm sido estudados no mundo todo.  No Brasil, esses estudos estão muito avançados no Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e seu uso experimental está bastante avançado em pacientes com depressão, resistente às formas tradicionais de tratamento.

            Contudo, o objetivo desse texto não é entrar nesse debate acirrado entre a medicina tradicional e corporativa e os conhecimentos da medicina milenar, que nos últimos 70 anos vêm sendo estudados em avançados centros de pesquisas do Brasil e do mundo.

            Recentemente uma experiência científica ramdomizada, com duplo cego, sobre o uso da ayahuasca para o tratamento da depressão de pessoas dos extratos economicamente inferiorizados das classes populares no Brasil gerou um resultado inesperado.  É sobre esse inusitado fato que queremos nos debruçar.

 

 

A experiência

 

            Até onde se sabia, a discussão sobre o fato da pobreza extrema ser um agravante social para o surgimento de psicopatologias, especialmente a depressão,  ficava no campo das opiniões, das subjetividades e dos debates ideológicos e populares, sem nenhuma comprovação científica. Até que um estudo chamaria a atenção da comunidade científica.


            Os resultados dessa pesquisa foram publicados em um trabalho científico intitulado “Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant depression: a randomized placebo-controlled trial”, disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6378413/.  A partir daí, todos aqueles que defendiam a visão social de que pobreza e miséria fazem mal para a saúde mental das pessoas ganharam um reforço de peso.

            Os participantes do estudo formaram uma amostragem homogênea, cujo principal pré-requisito era ser pobre e deveriam, ainda, ter o mesmo escore para depressão, conforme o “Montgomery-Asberg Depression Rating Scale (MADRS)”, que estratifica a gravidade dos episódios depressivos em adultos, e o The Total “Hamilton Depression (HAM-D)” Rating, que fornece uma indicação do nível de depressão para fazer o acompanhamento do progresso do tratamento.

            Vinte e nove pessoas selecionadas foram divididas em dois grupos: 15 pessoas fizeram uso do placebo e 14 usaram a ayahuasca.  Para chegar a esse número, 218 candidatos, entre 18 e 60 anos, apresentaram-se e foram filtrados, segundo rigorosos critérios médicos.  Os principais critérios de exclusão foram: experiência prévia com ayahuasca, doença médica atual com base na histórico pessoal, gravidez, história atual ou pregressa de distúrbios neurológicos, história pessoal ou familiar de esquizofrenia ou transtorno afetivo bipolar, história pessoal ou familiar de mania ou hipomania, uso de substâncias de abuso e risco de suicídio.

            O primeiro grupo tomou placebo em uma dose única de 1 ml/kg com aparência de ayahuasca. O outro grupo recebeu uma dose de ayahuasca ajustada para conter 0,36 mg/kg de N,N-DMT (Dimetiltriptamina), um dos seus principais princípios ativos.

            

        Os participantes foram tratados em ambiente controlado, dentro de um hospital, com toda a assistência material, pessoal e psicológica possíveis.  O ambiente era confortável, asseado, com banheiro higiênico, quartos com roupas de cama limpas, iluminação adequada, atenção cuidadora e todos os confortos de um setting ideal de tratamento terapêutico.  Todos estavam sendo assistidos de uma forma especial, em um lugar totalmente diferente de suas precárias moradias cotidianas  e muito melhor que os seus ambientes de vivências comunitárias.  O segundo grupo, separado do primeiro, também foi tratado sob as mesmas condições de acomodações e assistências, contudo, como dissemos, esse ingeriu as porções de ayahuasca.

 



Os Resultados

           

            Os resultados do uso da ayahuasca como assistente de psicoterapias foram muito promissores.  Mas o que chamou a atenção dos pesquisadores foi o efeito antidepressivo observado em quem fez uso do placebo. 


            Já há algum tempo, experiências com camundongos têm demonstrado que o uso de antidepressivos em indivíduos vivendo em ambientes adversos não produzem os efeitos antidepressivos esperados.  Essa influência que o ambiente exerce sobre as pessoas é denominada “contexto”.  Descobriu-se, como resultado indireto da experiência com o uso da ayahuasca para o tratamento auxiliar da depressão, que houve também uma redução na depressão das pessoas que ingeriram placebo.

            No grupo da ayahuasca,  foi observada uma redução da depressão, segundo os scores MADRS e HAM-D.  Contudo, surpreendentemente, por mais incrível que pareça, o placebo também gerou efeitos antidepressivos, facilmente verificáveis em ambos os gráficos.  Olhando o score MADRS, o placebo produziu uma redução da depressão entre a linha de base e o segundo dia, voltando a crescer entre o segundo e o sétimo dias, sem, contudo, voltar ao estágio inicial (Baseline), ficando abaixo do score anterior.  Já no que diz respeito ao HAM score, a redução da depressão foi também acentuada entre o momento inicial e o sétimo dia. 

           




 A pobreza é deprimente e depressogênica

 

            A partir desse estudo, podemos afirmar que o ambiente onde se vive, tanto em termos materiais como afetivos, é indutor de quadros depressivos.  Em outras palavras, o sujeito que vive em insegurança alimentar, em um ambiente afetivamente conflitivo, sem segurança pública, em um lugar sem os mínimos serviços públicos de saúde, educação e segurança, sentindo a sua existência física ameaçada social, política e economicamente terá, de um jeito ou de outro, a sua saúde mental em risco e abalada.

            Todas as circunstâncias negativas da vida em pobreza e miséria (fome, insegurança e medo, entre outros) são problemas complexos suficientes para induzir a problemas mentais, especialmente a depressão.  Em um estudo comentado nesse blog (http://desejoemcena.blogspot.com/2021/10/o-lado-brilhante-da-escuridao-depressao_28.html), os cientistas Paul W. Andrews e J.Anderson Thomson Jr., após analisarem mais de 8.000 estudos sobre depressão, concluíram que “a depressão é uma adaptação que evoluiu como resposta a problemas complexos e cuja função é minimizar a interrupção da ruminação para sustentar a análise de problemas complexos.”  (https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2Fa0016242)



            
Ora, pode existir problema tão ou mais complexo do que não ter o que comer no mesmo dia e nos dias subsequentes?  Alguém pode imaginar a complexidade do problema que é acordar, trabalhar, morar e dormir em uma área conflagrada e controlada por quadrilhas de narcotraficantes ou milicianos?  Levando esse quadro mais à frente, é possível sentir, minimamente, a insegurança, o pavor e a ansiedade por que passam as populações pobres desses locais quando as forças policiais do Estado, que deveriam protegê-las, invadem seus barracos sem mandados, ameaçam ou intimidam pessoas simples e honestas, não reconhecendo o mínimo de cidadania das populações dessas regiões pobres, arrepiando as leis e os direitos humanos?  É ou não é um problema complexo viver sob o risco de deslizamentos, sem água encanada, coleta de esgoto, insetos aos milhões e os barracos pendurados em encostas ou sustentados por palafitas?

            Indiretamente, essa pesquisa nos mostrou que a pobreza e a miséria fazem mal não somente para a saúde física, mas também mental.  Nesse caso, receitar antidepressivos funcionaria como um anestésico social, já que a realidade concreta em que se vive em nada mudaria; serviria para o sujeito naturalizar a realidade extremamente adversa em que vive, culpando a si mesmo por sua desgraça, bem ao estilo e desejo do discurso meritocrático da necropolítica e da necroeconomia do neoliberalismo hegemônico. 


P.S.:  As fotos das enfermarias são mesmo de instalações de dois hospitais universitários da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.


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