O MOVIMENTO DE DEMISSÃO SILENCIOSA: resistência psíquica diante da necro-economia neoliberal.
Por Wagner C de Menezes
"Endurecer sempre. Perder a ternura jamais". (C. Guevara)
É preciso resistir sempre e de todas as formas possíveis à grande capacidade do sistema, qualquer sistema, em destruir a saúde física, o afeto e a saúde mental das pessoas. É legítimo elaborar formas de sobrevivência. Entregar-se de corpo e alma de forma obrigatória ao trabalho, ignorando que há vida inteligente agradável e interessante fora dali, é um tanto suicida.
É exatamente essa a mensagem, intrínseca ao movimento não organizado conhecido como "demissão silenciosa", que vem se espalhando e se consolidando na Europa, nos EUA e no Brasil já mostra que veio para ficar.
Por trás desse movimento, que qualifico de resistência ao necrocapitalismo com a sua máscara neoliberal, assim como as pessoas se obrigam a se enterrar no trabalho, muitas vezes até desagradável e mesmo estando doentes ou adoecendo, por que também não se obrigar a ter uma vida interessante de leituras, filmes, lazer, caminhadas, atividades físicas, ócio produtivo, viagens contemplativas etc. dentro e, especialmente, fora do escritório? Por que também não se esforçar em construir redes de amizades informais, divertidas, alegres, solidárias etc também dentro do trabalho?
A Europa ocidental hoje discute, seriamente, a redução da carga horária de trabalho semanal sem redução de salários, juntamente com a flexibilização de horários. No Brasil, vamos na contramão. Os neoliberais, alguns travestidos de liberais, pregam a perda de direitos trabalhistas e um aumento de produtividade. Onde eles falam "produtividade", na verdade leia-se exploração do trabalhador, fazendo-o gerar mais capital pelo mesmo salário e sem participação nos lucros.
O Cobertor é curto. então cubra-se o mais fraco.
Essa expropriação do tempo e da saúde pode se dar de muitas formas. Como na vida de um trabalhador que labora diretamente com e por meio de computadores (informática: redes sociais, aplicativos, formulários on line, telemarketing etc). Também é o caso dos que são empurrados a produzir mais serviços por meio dos links de demandas recebidos em seus aplicativos, como é o caso dos entregadores e outros trabalhadores de aplicativos.
Estes também produzem um mais-valor relativo. Esse trabalhador de aplicativos, sem quaisquer direitos, é chamado cinicamente de empreendedor, tanto pelos empresários assim como pela mídia corporativa privada, que funciona como seu escritório de propaganda. Um empreendedor capitalista de verdade pesquisa mercado, possui capital constante, capital de giro e capital variável (seus empregados). O trabalhador de aplicativo só tem a si mesmo. Ele é explorador de si mesmo; pior, no caso dos uberizados, entregam de graça o seu capital constante (automóvel), à acumulação do dono do aplicativo, sem conhecer ou participar do cálculo contábil que permita a reposição mensal desse capital constante. Nesse caso, o capitalista, muito provavelmente não lhe dá uma compensação pela deterioração desse patrimônio, que permita a reposição do seu automóvel ao final de um conjunto de anos. Fica claro que o capitalista acumulou para si a deterioração do objeto de trabalho do uberizado. O Uberizado não sabe e não quer saber disso. A ideologia dominante o convenceu de que ele é "empreendedor"... patrão de si mesmo. Triste sina?
O que o movimento da demissão silenciosa está propondo é a imposição de limites para que o capital não afete, estruturalmente , sua identidade e à sua produtividade no trabalho, associado-as de forma subserviente aquilo que o patrão chama de produtividade e os trabalhadores conscientes chamam de taxa de exploração não devolvida ao trabalhador na forma de bem estar coletivo e individual."
Não confundam alhos com bugalhos
Isso não é o mesmo que fuga da realidade. A fuga da realidade pressupõe um movimento de foraclusão total ou parcial, típicos de algumas psicopatologias, ou seja, o sujeito foracluído cria uma realidade paralela na qual vive seus delírios: o caso dos psicóticos ou dos neuróticos que, em crise, deixam a parte psicótica de suas personalidades vir à tona. Nesses casos, não há uma elaboração crítica do sofrimento, da desintegração psíquica e social e da despersonalização.
Já o movimento de demissão silenciosa interfere no real como resistência consciente. Ainda que não seja um movimento organizado strictu sensu, aponta para o fato de que o sistema capitalista apresenta-se bastante exausto e os trabalhadores contemporâneos não estão dispostos a carregar as quatro alças do caixão sozinhos.
Espera-se que, para conter essa onda, os capitalistas e seus clérigos não resolvam reabilitar a legislação real inglesa dos setecentos, especialmente a da pré-revolucão gloriosa, para a qual todo trabalhador que se recusasse a se empregar ou fosse pego em "vadiagem" poderia ser punido com o suplício da orelha cortada. Cabe lembrar que os capitalistas ingleses reabilitaram tal punição durante a revolução industrial para todos aqueles que resistissem se entregar às jornadas desumanas por salários miseráveis de corpo e alma.
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