VOU APERTAR E VOU ACENDER AGORA: pulsão, compulsão à repetição, vícios e drogatização

 (Por Wagner Chagas de Menezes)



        Em 1986, o sambista Bezerra da Silva (1927–2005) gravou a música de autoria de Adelzonilton Barbosa da Silva (1943-2016), Moacir Bombeiro e Popular P, intitulado Malandragem um tempo”Os primeiros versos dizem assim:

“Vou apertar.  Mas não vou acender agora.  Vou apertar.  Mas não vou acender agora.  Se segura malandro.  Pra fazer a cabeça tem hora”. 

 Após fazer uma crítica ao ato no primeiro e segundo versos, o restante da letra fala das vantagens de não levá-lo imediatamente a termo e sempre deixar para depois a sua segunda parte:


Malandragem um tempo.  Deixa essa de sujeira ir embora.  É por isso que eu vou apertar.  Mas não vou acender agora.  (…)  Quando os ‘home’ da lei grampeia, Coro come a toda hora.  É por isso que eu vou apertarMas não vou acender agora”.

 

O letrista da canção e Bezerra da Silva estavam fazendo a crônica musical de algo popularmente conhecido.  No fundo, eles sabiam que, uma vez que o baseado estivesse apertado, as chances de acender e fumar eram praticamente certas. Porém, uma vez instalado o vício, depois de apertado o cigarro de maconha, acender e fumar eram apenas pequenos passos de ato contínuo.


 


 

Psicanálise e vícios. 




A Psicanálise tem uma boa contribuição a dar ao debate sobre os problemas dos vícios em geral, sejam os vícios em drogas legalizadas, como em álcool, cigarro e psicofármacos; ou em drogas ilegais, como o vício em maconha, cocaína e crack, entre outras. 

 

Para a Psicanálise os vícios são compulsões, ou seja, uma pressão interna para o sujeito fazer alguma coisa ou consumir algo de maneira irresistivelmente obrigatória. Ao não resistir, ele repete o ato quantas vezes forem necessárias até que se sinta satisfeito.  O problema é que, como qualquer prazer obtido, ele é inexequível no tempo,  ou seja, mal alguém alcança um determinado gozo, seja comprando um carro zero km, tendo um momento de cumplicidade sexual, ultrapassando uma fase no video game ou consumindo qualquer droga que se logo se compelido a buscar um novo gozo.  A “satisfação” é sempre temporária e logo volta o desejo de repetir o ato.  Essa vontade irressistível de repetir, repetir, repetir e repetir, a psicanálise chama de “compulsão à repetição..

Compulsão também pode ser entendida a partir da junção de duas palavras: com + pulsãoEm outra palavras, o vício é um ato mecânico “com” o acompanhamento de um movimento psíquico, a “pulsão”.   

Apesar de muita gente confundir pulsão com instinto, elas são coisas distintas, tanto que o próprio Freud decidiu usar palavras diferentes do alemão para distinguí-las: usou trieb para pulsão (do latim pulsio ou pulsus = particípio passado de pellere, “empurrar, levar a”: ato de impulsionar; levar a [fazer um movimento]); e instinkt para instinto.  O Dicionário de Psicanálise de Elisabeth Roudinesco define pulsão como:


“(…) carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem”.  o termo instinto é mais apropriado para qualificar os comportamentos animais”.


 Não é difícil encontrar exemplos para explicar tal diferença.  Quando um bebê está com fome, ele fica tenso e começa a chorar.  Essa fome é instintual e visa garantir a sua sobrevivência para que mais tarde, em fase reprodutiva, ele possa perpetuar a espécie.  No entanto, não é incomum que mesmo após saciado, o bebê continue a chuchar o bico dos seios ou mesmo a sugar o dorso da mãozinhaEntão podemos dizer que buscar saciar a fome é institual e está intimamente ligado ao princípio de conservação ato de continuar a chuchar após a fome ter sido saciada é pulsional.  

Aqui cabe um aparte. Vai ficando mais claro que a relação de prazer oral com o ato de chuchar os seios maternos em algumas circunstâncias podem se fixar e gerar uma psicopatologia fetichista, na medida em que todos os outros objetos de prazer oral que vão se sucedendo vão se tornando o substituto do objeto principal. Neste caso, o sujeito passa a não se relacionar com as outras pessoas, outros objetos e situações sociais na forma de uma relação de objeto integral, mas como uma parte de si em relação com uma parte do outro, gerando grande confusão mental e tensão. Ai, o fetichismo é patológico porque a fixação no objeto de desejo decorreu de uma libido eminentemente e permanentemente infantil, que pode ser superada por meio da dedicação à terapia de natureza psicanalítica. 

Voltemos. A tradução de trieb para o inglês, drive (to drive = dirigir), nos aponta um bom caminho para entender o mecanismo da relação entre a pulsão oral e os vícios.   Basicamente, podemos concluir que os vícios em tudo que é ingerido, pega carona com a pulsão oral, que lhe é o motorista e o dirige.  Como os vícios também são caracterizados pela compulsão à repetição, podem ser enquadrados como uma neurose na medida em que o sujeito entra em ato repetidamente. 

Por este meio, o vício traduz em atos aquilo que lhe é uma imagem inconsciente.  A lembrança primária, situada na fase psicossexual oral, é a fonte de distensionamento produzido pelo ato oral primordial: o prazer gerado pela amamentação.  Na impossibilidade concreta de se obter distensionamento por essa forma, o sujeito substitui a cena primária gerando uma cena secundária, por meio de outro objeto de satisfação oral, que lhe proporciona tal distensionamento, ainda que com graves consequências físicas, psíquicas e sociais.   

Até mesmoconsumo excessivo de calorias e, em alguns casos extremos,  a participação em seitas e religiões de forma obsessivaem função do uso enfático da oralidade em pregações cognitivamente dissonantes, poderiam se enquadrar nesse perfil. 

Cabe lembrar que outras fixações podem ocorrer em qualquer fase do desenvolvimento psicossexual. Aqui, em função das compulsões orais, abordamos apenas essa fase desse desenvolvimento. 

 


 

A arte imitando a vida 




 Uma trajetória que nos sugere essa psicodinâmina foi a de Tim Maia (1942-1998), um cantor de interpretações potentes e composições bastante expressivasBiograficamente, Tim Maia tinha uma compulsão pelo consumo excessivo de calorias (https://www.youtube.com/watch?v=Y_XR9XJlxHs)..  Esse comportamento atravessou toda a sua vida e foi convergindo com outros comportamentos de forte conotação oral, tais como o uso de drogas como cocaínaEm um certo momento de sua vida, parece ter substituído o uso das drogas por uma tentativa de reprimir o vício atráves da sua forte oralidade na participação em uma seita conhecida como “Universo em Desencanto. Nesse espaço místico, Tim pregava e também compunha por ela influenciado, tendo nascido daí uma de suas boas cançoes: “Imunização Racional (Que beleza!)”, 

Infelizmente, sua experiência religiosa não foi suficiente para sublimar sua pulsão oral, tendo voltado a comer compulsivamente e a usar drogas e alcóol, segundo as biografias escritas e os documentários existentes.  Tim Maia não conseguiuver tudo bem mais claro no escuro”  como cantava na cançãoImunização Racional”, vindo a óbito em 15 de março de 1998, na cidade de Niterói, RJ, após passar mal em um dos seus shows.   

Terá sido Sebastião Rodrigues Maia mais um daqueles personagens que Freud, a partir de seu texto de 1916, classificaria como aqueles que “fracassam ao triunfar“? Pode ser que sim... Mas exigiria mais pesquisa. Contudo, temos certeza de que ele deixou um discografia incrível, com músicas de excelentes arranjos, letras para se pensar e swing para dançar. 

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