“PODE PASSAR; NÃO VOU TE BATER.”: a ameça, o medo e a culpa na construção das perspectivas das práticas sociais e educacionais no brasil
Por Wagner Chagas de Menezes – Historiador e Psicanalista
Apresentação
Recentemente, um educador do Paraná/Brasil fez um brincadeirinha na qual os alunos respondiam à chamada com "falas de mãe". A brincadeira pode ser inocente, mas esconde algo sinistro daquilo que Jung talvez definisse como "inconsciente coletivo". Vamos a algumas das respostas das crianças nessa chamada de presença (https://www.youtube.com/shorts/LqfX5Z2XMd8; https://www.youtube.com/watch?v=HkvwDEBaG3s): "Se não estudar vai apanhar."; "Enquanto viver debaixo do meu teto, quem manda sou eu."; "Pode passar; não vou te bater."; "Se eu for aí vou esfregar na sua cara." e muitas outras no mesmo tom... Outras “frases de mãe”, em um tom mais pedagógico e não punitivo surgiram, sugerindo aprendizado, desenvolvimento das capacidades, cuidado e preocupação, tais quais: “”Você acabou de almoçar e só vai na piscina depois de duas horas.”; “Arrume seu quarto.”; “Vai dormir.”; “Não esquece o casaco.”
É natural que tal ambivalência se apresente nas falas, já que a contradição é inerente aos membros da espécie humana, ou seja, alguém pode ser e não ser ao mesmo tempo. Mas essa relação não se dá em equilíbrio perfeito. Em sociedades com uma história prolongada de exploração, violência, coerção e exclusão, como a brasileira, não é demais admitir que a ênfase dos seus métodos educativos é autoritária.
Caso o Paulo Freire fosse vivo, aproveitaria as respostas das crianças para demonstrar que por trás delas se encontra o caráter autoritário e punitivo da educação brasileira em todos os lugares, sejam eles privados ou públicos.
A organização das experiências e expectativas educacionais no Brasil
É na educação autoritária, por natureza excludente, e que não enxerga as crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, que começam a ser edificadas, e passivamente aceitas, as propostas politicas ditatoriais. Inicia-se ali a banalização do mal, a normalização da violência dos agentes policiais estatais e a aceitação da ameaça e do medo como recursos pretensamente "pedagógicos".
Desde tempos imemoriais o medo é figura presente: medo da fome, da fera, da ferida, da sede, de ser abandonado. O Homem evoluiu e os medos estruturantes foram atualizados: medo da solidão, da desaprovação, do desamor dos pais, da violência, entre outros... Para fortalecer o temor, a cultura autoritária gera a culpa.
E ambos se tornaram os organizadores das experiências e expectativas da sociedade brasileira de cima para baixo. Se bem que alguns primitivos medos voltaram porque nunca foram definitivamente afastados, como o medo da fome.
O filósofo e psicanalista Slavoj Žižek, em seu excelente "El sublime objeto de la ideologia" apontou que o objeto de desejo de toda ideologia é o inconsciente, e nele penetrar até se naturalizar como se assim sempre tivesse sido. Neste sentido, há fortes indícios de que a manipulação das culpas e a espetaculização dos medos individuais e coletivos sejam uma das chaves para se abrir as portas para essa penetração às profundezas da mente. É isso que também pode explicar que a ameaça e a manipulação do medo servem a dois propósitos: gerar corpos dóceis (domesticados) e desestimular questionamentos e revoltas contra os métodos autoritários do Estado e seus agentes.
É exatamente isso que liga a sociedade que estava por trás da gravura (Figura 1) de Debret (1768—1848), na qual um homem escravizado e amarrado a um tronco é açoitado por outro negro acorrentado pelos pés, com a sociedade de maio de 2022, a qual, mais de 100 anos depois, assistiu impassível e estarrecida de medo a dois policiais rodoviários federais colocarem um homem pardo e com problemas mentais dentro da caçamba de um camburão (Figura 2), juntamente com uma bomba de efeito moral soltando fumaça até o sufocamento e o óbito do mesmo (Sergipe - 25/05/2022).
É a mesma sociedade e o mesmo sistema econômico liberal, os quais lançavam ao mar homens escravizados, mortos e morimbundos às centenas, como ocorreu com o navio de escravos "Zong" em 1781, primorosamente pintado por Willian Turner em 1840: “Slave Ship (Slavers Throwing Overboard the Dead and Dying, Typhoon Coming On)” (figura 3: composição em close), que se conectam no tempo, 241 anos depois, pela via das mentalidades de longa duração, com a gravura de 1853, que ilustra o livro de David Livingstone (1813-1873): Missionary Travels in South Africa, ocorrida em 1853 (Figura 4), e esta com a cena de 1982, na qual um policial militar do Estado do Rio de Janeiro carregava seis pessoas presas e "algemadas" uma às outras pelo pescoço por meio de uma corda no Morro da Coroa (Figura 5): Foto Prêmio Esso, em 1983 Foto:Luiz Morier Data:29.09.82 Neg.1259127).
Também há uma conexão em nível das mentalidades e das práticas públicas e privadas estatais autoritárias entre uma gravura do século XIX de Debret, intitulada "Castigo", na qual um homem negro escravizado está em uma forma de pau-de-arara sob o olhar vigilante do seu algoz (Figura 6) com a imagem estarrecedora de um desfile, no qual a Guarda Rural Indígena - GRIN, criada como milícia de repressão rural, desfila com um homem pendurado também em um pau-de-arara (Figura 7); ainda que possivelmente seja uma simulação, a filmagem desse desfile é considerada o único registro histórico (1970) de ensino da prática de tortura por membros das FFAA durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).
Tudo isso dá medo e paralisa porque é realmente amedrontador. O medo é do campo da longa duração e ele está totalmente infiltrado nos modos de fazer e de usar da sociedade brasileira.
A Educação e a Cultura podem ser locais de resistências e transformações
É na escola e na família que a ideologia autoritária deveria ser rompida; que os métodos educativos não punitivos deveriam ser implementados.
Em muitos casos, é na escola pública e pelas mãos de educadores críticos e conscientes que realmente se dá o que Freud chamava de "reeducação". Não são muitos, mas o bastante para incomodar o núcleo duro da ideologia hegemônica: os setores ultraconservadores e reacionários; de tal forma que não é por acaso que surgiram campanhas pela diminuição da maioridade penal, implantação de escolas cívico-militares no bojo da política cínica do "escola sem partido" (como se ela já não fosse do "partido autoritário", em essência...) e o estrangulamento dos recursos para a educação, ciência e tecnologia. Os senhores do poder sentiram-se ameaçados....
Tenho certeza que a intenção dessas brincadeiras não é reforçar o autoritarismo na educação. Mas ao não fazer a sua leitura crítica, tais educadores, pais e mães reforçam a dominação sistêmica do medo e da ameaça como organizadores das mentalidades e das expectativas socioculturais.
É no chão da educação e da cultura, que está sendo travada a batalha final pela morte do homem velho. Mas será que o homem novo já entendeu isso? De qualquer forma, é nesse lusco-fusco, que surgem os monstros.







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