EDUCAR É UMA MISSÃO IMPOSSÍVEL: o “Intruso Importuno” diante do espelho

 

Por Wagner Chagas de Menezes – Psicanalista e Historiador


Freud escrevia ensinando.  De certa forma também era um educador.  Mas tinha consciência de que a Psicanálise não tinha nenhuma contribuição a dar sobre o que fazer para educar, mas sabia que era possível ela demonstrar o que não fazer para que houvesse educação.  

Freud buscava construções frasais de fácil entendimento.  Mesmo quando usava um termo científico, logo em seguida explicava-o dando exemplos.  Foi contando uma história que ele explicou como atua o desejo recalcado.  Para ele, esse desejo era, em suas próprias palavras, um “Intruso Importuno”.   Doravante vamos chamá-lo como tal, como se esse fosse seu nome próprio.  

Abaixo vamos contar uma história para você entender isso...  Freud já havia escrito uma história semelhante.  Mas ampliamos o contexto para um melhor entendimento de parte da teoria e do método psicanalítico. 

Imagina que você está assistindo uma palestra, uma sinfonia, um recital ou algo que reúna outras pessoas em um ambiente no qual o silêncio e a paz são fundamentais.  De repente, alguém muito incomodado começa a fazer muito estardalhaço, dá um chilique, grita, exalta-se e até chora...  Esse sujeito tem algo a dizer, mas não sabe ou não está conseguindo se expressar de maneira adequada na hora adequada.  Ele é só desejo (Inconsciente).  Ele é o que Freud chamava de “moção desejante”, ou seja, desejo em movimento.   

Acontece que algumas pessoas da plateia (ego) sentindo-se muito desconfortáveis com tal comportamento, começam a reclamar (resistência) do sujeito e, reclamando, pedem ajuda aos seguranças (superego) para expulsar o sujeito da sala.  Então, o “Intruso Importuno” é colocado à força (recalcado) do lado de fora da sala e deixado em uma das galerias (id).  

Em seguida, todos passam a achar que o evento transcorrerá tranquilamente.  Mas o “intruso importuno” reprimido e aquilo que dele foi ainda legado a um quase total esquecimento, ou seja, foi recalcado, não permitem que a encenação acabe de imediato.  Uma vez na galeria, o “Intruso Importuno” começa a fazer um furdunço ainda maior.  Perturba a todos batendo nas latas de lixo, nas portas, quebra os vidros das janelas e tenta chamar a atenção do ego de uma forma diferente, mas não menos desagradável ou insuportável.  Tanto a forma dele agir dentro do salão como nas galerias são os sintomas apresentados.  Fica claro que nem a resistência, nem a repressão, nem o recalcamento são capazes de dar um destino satisfatório às manifestações do atormentado “Intruso Importuno”.   Alguém sugere que os seguranças o reprimam ainda mais.  Chamam a polícia, o padre e o pastor.  No entanto, isso só consegue aumentar
ainda mais as manifestações sintomáticas.  Havia a alternativa do hospital psiquiátrico para dopar profundamente o “Intruso Importuno”.  Mas isso também não é uma solução definitiva porque ele será anestesiado, seus sintomas serão interrompidos temporariamente; não será nem mesmo uma remissão dos sintomas.  Mas, na melhor das hipóteses, poderá estabilizar o “intruso importuno” para que ele consiga melhor aderir a uma psicoterapia a seguir.
 

Fracassadas todas as tentativas, alguém da plateia se levanta e pergunta: “Tem alguém nesse recinto que possa ajudar nesse caso?”  Uma pessoa do público se levanta, dirige-se para as galerias, se encontra com o “Intruso Importuno” e se apresenta.  Ele ouve as demandas do “Intruso Importuno”, busca entender as razões da sua “encenação” (acting out) e, depois de algum tempo ouvindo um ao outro, eles descobrem algumas coisas importantes.  Esse “descobrir” só foi possível porque houve empatia e confiança entre ambos.  Em termos psicanalíticos, pode-se dizer que houve a tal da “transferência”... 


Dentre as descobertas, uma das mais importantes foi a que de onde o sujeito estava sentado, ele não ouvia absolutamente nada do que estava sendo falado, tocado ou cantado; primeiro porque o lugar era ruim, depois porque algumas outras pessoas estavam conversando entre si de ambos os lados, com ele no meio da conversa.  Ele até reclamou com a organização, mas sem sucesso.  Suas tentativas de solução pacifica esgotaram-se, exatamente como acontecia em casa, na escola e no trabalho.  Nesses lugares ninguém o ouvia, ninguém lhe dava atenção, passando a desenvolver alguns mecanismos ineficazes de defesa do ego.  Toda vez que ele reclamava, em casa ganhava um violento puxão de orelha da mãe, um nítido processo de fortalecimento da Repressão; na escola era zombado pelos colegas e agia com os alunos menores da mesma forma que o valentão da sua turma na forma de um mecanismo ineficaz de defesa do ego conhecido como Formação Reativa,  ou seja, uma forma agressiva para compensar a sua real fragilidade; e no trabalho não era ouvido em suas sugestões de melhorias para um melhor andamento das tarefas laborais, projetando em sua chefe a figura materna (Projeção), já que seu cargo não era de chefia.

  O “Intruso Importuno” foi forjado como um neurótico ao longo de sua vida e o sujeito que o acolheu e o confortou era na verdade um psicanalista.  Nesse caso, o que o analista fez foi contextualizar o presente lançando mão do passado.  Sabia ele que isso deveria ser feito paulatinamente, parte por parte, já que uma descompressão súbita de todo aquele material reprimido ou recalcado (catexia) poderia gerar uma explosão ainda maior.  É aos poucos e lentamente que o sofrido deve vir à tona, inclusive para dar tempo do sujeito elaborar o que vem do inconsciente, ultrapassando a barreira do pré-consciente e chegando à consciência.

Ali, onde havia desconhecimento e rejeição, o psicanalista foi um mediador capaz de fazer uma negociação com o “Intruso Importuno”, a fim de que ele pudesse reingressar ao anfiteatro, depois de se comprometer a não mais perturbar o auditório. A tarefa do psicanalista, portanto, foi reconduzir o sintoma a seu lugar de origem, isto é, à ideia recalcada. 

O “Intruso Importuno” voltou a se chamar Maria, Clarisse, Pedro, Paulo etc.  Voltou ao recinto e seguiu em frente e melhor com sua vida... 


* Foto 1: Cena do Filme "Um método perigoso", de David Cronenberg

** Foto 2: Fotocomposição: Michael Douglas no filme "Um dia de fúria", de Joel Schumacher;  Joaquim Phoenix  no filme "Joker" (Coringa), de Todd Phillips.

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