CASO NÃO SE GOZE AGORA BROCHA-SE PARA SEMPRE?: ainda está valendo a pena ou não adiar a satisfação de um desejo imediato?

 Por Wagner Menezes - Psicanalista e Historiador

 

        A mente funciona como um sistema econômico de investimentos.  Em uma economia de mercado e de investimentos simbólicos e financeiros todo mundo quer investir para ganhar; e quanto mais rápido melhor.  Obter a maior satisfação com o menor de dispêndio de energia psíquica é o Santo Graal do exercício de investimento dos desejos da esmagadora maioria  das pessoas.  Por tudo isso é que o "princípio da evitação do desprazer" é o fundamento da economia psíquica.

É aí que reside a  grande armadilha que prende as pessoas a um casamento infeliz; a um emprego medíocre; a amizades desproporcionais ou até tóxica e até a governos autoritários e que governam  contra o bem estar individual ou coletivo.  

Tudo bem que um pouco de frustração na vida nos faz crescer e amadurecer quando bem elaborada.  Isso pode acontecer se a frustração vier imediatamente acompanhada da percepção das capacidades inatas para se atingir um objetivo e da busca pelos meios que a desenvolverão as ferramentas para tal.  Nesse caso,  o segredo para o sucesso é cada qual ser capaz de suportar uma frustração ao adiar a satisfação de um desejo  imediato para favorecer a conquista e o gozo de um desejo maior  que, por sua vez, trará uma satisfação superior  e mais permanente quando realizado.

O investimento nos estudos é um bom exemplo do que foi dito.  Estudar por obrigação não é algo natural, assim como trabalhar para acumular bens também não é.  Caso atendêssemos aos reclames da natureza, passaríamos os dias deitados debaixo de uma árvore frutífera e próximos a um córrego de águas límpidas.   Sairíamos dessa posição apenas para caçar e coletar alimentos.  Viveríamos para satisfazer os desejos instintuais imediatos.  Mas em estado de cultura é diferente.  Somos obrigados a estudar e trabalhar.  Então, no momento em que as pressões instintuais para se fazer o mínimo se manifestam, a cultura força o adiamento do prazer imediato para, mais ali na frente, obtermos um prazer maior e que ecoará por mais tempo no nosso tempo de vida.  Mas quase sempre não é isso o que acontece.  Nosso cérebro foi treinado pela natureza para se satisfazer aqui e agora.

Adiar a compra de um calçado ou uma vestimenta pode ser interessante para comprar algo de melhor qualidade e até mais barata mais adiante ou até mesmo para não faltar alimentos nas compras do mês.  Estudar para ter uma excelente formação e ter melhores salários no futuro ao invés de ficarem horas no videogame ou em outros prazeres consumistas  é outro exemplo.  Esses anos de estudos poderão culminar com um bom trabalho e com um melhor salário na aposentadoria.  Esses são alguns exemplos de desejos imediatos, cuja satisfação foi adiada para a realização de algo mais sólido em um momento da vida em que a energia física já não é suficiente para a manutenção dos indivíduos.  

E se a cada legislatura essa aposentadoria for adiada por reformas previdenciárias para uma idade cada vez mais avançada, o que acontece? E se ela for insuficiente para a reprodução digna da saúde, lazer dos idosos entre outros?  Quem empregará um idoso?  Terá valido a pena adiar a satisfação de desejos imediatos?  

Quando um sistema econômico frusta constantemente o prêmio para todos aqueles que adiaram a satisfação de desejos imediatos pela construção de desejos maiores e permanentes,  o  que ele faz é endossar uma tendência natural em oposição à sua manifestação cultural.  O resultado disso não tem a mínima condição de ser bom, mas uma epidemia de transtornos psíquicos, comportamentais e de personalidade cada vez mais variados e adaptados às frustradas ilusões de sua época.    

Talvez não seja pór acaso que uma geração inteira de jovens estejam investindo tanta energia na consecução de pequenos gozos imediatos em partidas on line de videogames, investimentos em bitcoins, "ficantes", vídeos curtos de entretenimento (Reels e TikTok) e redes sociais pueris, entre outros.  Ao que tudo indica, esse sim parece ser o "espírito do tempo" desse início de milênio.

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