O JOGO DOS ESPELHOS (MIDE VI): identificação

 

“Máscaras”, 1938, Lasar Segall, óleo sobre tela. Foto: Reprodução

Por Wagner Chagas de Menezes


Nem toda identificação pode ser considerada um Mecanismo Ineficaz de Defesa do Ego (MIDE).  Há uma forma saudável de identificação que faz parte da construção da personalidade e do caráter do sujeito.  Trata-se daquela em que os valores da civilização e os padrões de comportamentos socialmente aceitos foram assimilados pelo superego das crianças por meio da identificação com os mesmos padrões nos pais.  Neste processo, o ego evolui sem solavancos; sem uma diferenciação muito extrema entre o ego e o superego.  Isto é mais comum quando o sujeito tem um ideal de ego, um modelo equilibrado com o qual se identifica.

 

Contudo existem formas mórbidas de desenvolvimento da identificação como mais um Mecanismo Ineficaz de Defesa do Ego.  Em todas estas formas, um superego muito investido passa a ser sentido como um corpo estranho no interior da personalidade do sujeito na medida em que o ego vai ficando demasiadamente exposto a uma pressão emocional maior do que pode tolerar.  Na identificação, a ameaça externa é internalizada, enquanto na projeção a ameaça internalizada é externalizada.

Um bom exemplo deste mecanismo de defesa em ação ocorre com os depressivos e melancólicos.  Devido à dificuldade de viver e processar o luto, no sujeito depressivo o objeto amado, perdido e interiorizado, é recriado como parte da personalidade do sujeito e com ele identificado, não deixando por isso de lhe ser um corpo estranho.

Exatamente por ter sido este outro introjetado, subitamente, na sua totalidade -   e não gradualmente, como seria numa identificação saudável – é que este corpo estranho é tratado com a mesma ambivalência de quando estava do lado de fora.  É por isto que qualquer hostilidade direcionada a este objeto original de amor é automaticamente transformada, vivenciada e sentida como uma ação de autodestruição.

Há ainda outro e peculiar tipo de identificação no qual o ego para se defender de um sofrimento iminente, provindo de uma pessoa ameaçadora, acaba por se identificar com ela, adotando seus trejeitos, qualidades e até a visão de mundo.  Tanto crianças como adultos que foram brutalizados adotam este mecanismo primitivo de defesa do ego.  Isto pode ser observado em algumas histórias de sobreviventes dos campos de concentração nazistas, cujas narrativas descrevem prisioneiros que agiam com outros prisioneiros tais quais seus algozes nazistas.  Credita-se a Ana Freud a descoberta desta variação da identificação como defesa.

A partir dessa variante há uma outra forma de identificação como MIDE.  Trata-se da identificação projetiva.  Nesse caso, como descrito no parágrafo anterior, a figura ameaçadora depois de introjetada e imitada, gera sentimentos ambivalentes, geralmente autodestrutivos.  Nesse caso, o ego para se proteger de sofrimentos e até um colapso, projeta esse sujeito com o qual se identificou em uma ou mais pessoas próximas.  

Vou contar um caso clínico em que atuei como exemplo.  Maria e João eram namorados (Maria e João são nomes fictícios).  Maria havia sido abusada e brutalizada por um parente próximo,  já falecido, da infância até a adolescência.  Desenvolveu depressão e tratou-se por décadas, até conhecer João. Logo após os primeiros meses de namoro, Maria começou a tratar joão de forma agressiva e descontextualizada, imputando-lhe culpas, motivos e razões que justificassem seu sofrimento e depressão.  Maria via em João características e comportamentos de seu antigo algoz.  João não entendia e sofria com isso.  João também começou a desenvolver depressão e me procurou.  Depois de alguns meses, feitas as necessárias retificações subjetivas a partir das narrativas de João, este passou a entender que não era a  ele que Maria falava quando descarregava as suas críticas e até ira.  Era com o seu abusador projetado na pessoa do João.  Houve aí uma transferência, sendo que João encarnou o imago do carrasco de Maria.  Até aí, João sempre contratransferia negativamente, contudo deixou de fazê-lo. 

Entendido esse processo, João mudou de comportamento nesses momentos de crise e, ao invés de passar da ação para a reação, intermediou esse processo com a reflexão, a ponderação e o silêncio, de forma acolhedora e confortadora.  Com a mudança do João, Maria deixou de projetar nele e passou a fazer uma identificação projetiva com seu chefe, em um ou outro professor e até mesmo em outras mulheres, desde que essas estivessem em posição de poder, tal qual o seu algoz.  As mudanças para melhor em João progrediram, o que influenciou Maria positivamente.  Maria também começou a fazer sessões de psicanálise com uma expressiva melhora no seu quadro geral.  As crises depressivas foram se expaçando, tornou-se mais social até nunca mais precisar de psicofármacos e a depressão não mais lhe atormenta.  Maria e João mudaram tanto, que as razões que os faziam permanecer juntos deixaram de existir ao ponto de cada um seguir caminhos próprios, separadamente.

 


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