O LADO BRILHANTE DA ESCURIDÃO: a depressão como meio para a solução de problemas



                                                                                    Por Wagner Chagas de Menezes


Apresentação

         Em julho de 2009 foi publicado nos EUA a maior e, até o presente, a mais completa metanálise sobre a depressão.  Os autores , Paul W. Andrews e J. Anderson Thomson Jr., são pesquisadores associados aos departamentos de psicologia e psiquiatria da Virginia Commonwealth University e escreveram suas descobertas no fabuloso estudo denominado “The bright side of being blue: depression as an adaptation for analyzing complex problems” (*) (O lado brilhante de ser triste: depressão como adaptação para analisar problemas complexos).

         Uma metanálise é uma técnica estatística usada para identificar o que há de comum em dois ou milhares de estudos, independentes no tempo e no espaço.  Os resultados da metanálise buscam formar um consenso por meio do que é majoritário nas convergências, formalizando um resumo desses resultados.  

         Os resultados desta metanálise,  deveriam ter balançado as estruturas do conhecimento e do tratamento da depressão.  No entanto, isso não ocorreu.  Muitas respostas podem ser dadas para isso.  Há um entendimento de que o maior obstáculo para a popularização desse estudo é o lobby da poderosa indústria de psicofármacos.  Também por isso, não é nada incomum conversar com muitos profissionais do campo psi e ouvir deles que desconhecem tal estudo.  Lamentamos.

         Nesse resumo, objetivamos apresentar o suprassumo do que foi condensado pela metanálise, bem como expor os seus conceitos fundamentais.

O centro e suas bordas

A hipótese central do trabalho é a da ruminação analítica.    Para eles, “a depressão é uma adaptação que evoluiu como resposta a problemas complexos e cuja função é minimizar a interrupção da ruminação para sustentar a análise de problemas complexos” (2009:1), ou seja, problemas analiticamente difíceis.  Em outra síntese, o estudo conclui que a “a depressão é um mecanismo evoluído de resposta ao estresse” (2009:03).  Há inúmeras evidências científicas de que alguns mecanismos de respostas a esse estresse podem produzir prejuízos exatamente no momento em que diferentes sistemas corporais são demandados para responder ao estressor.  Desta forma, ficam garantidas as exigências do cérebro por mais energia, de forma a sustentar a análise do problema gerador.  Os autores definiram análise a partir do American Heritage Dictionary, como “[a] separação de um todo intelectual ou material em suas partes constituintes para estudo individual e estuda essas partes constituintes e suas inter-relações na constituição de um todo” (2009:04).

         O estudo demonstra como a depressão não é a doença em si, mas um procedimento criado pelo processo evolutivo para que a mente, uma grande consumidora de energia vital, em psicanálise diríamos libido, economize energia para potencializar o uso dos recursos cognitivos.  Tais recursos são entendidos “como mecanismo neurológico envolvido no monitoramento, processamento ou armazenamento de informações” (2009:09) para resolver problemas complexos.  Os problemas assim vistos são aqueles resistentes às tentativas elementares de solução,  por meio da ruminação analítica de forma ininterrupta. 

A ruminação analítica ocorre diante de estressores evitáveis. São denominados evitáveis porque o depressivo não compreendeu, precisamente, a causa da situação e de como ela o influencia.  Curiosamente, essa forma de pensamento é aquela que excita o cérebro sobremaneira e demanda mais energia para que a ruminação analítica cumpra o seu trabalho de identificar a causa do problema estressor, como ele poderia ter sido evitado e como evitá-lo no futuro.  Cabe aqui esclarecer que nem sempre o conhecimento do estressor é evidente.  Em alguns casos estão enterrados em experiências passadas traumáticas.  O que pretendemos polemizar em outra oportunidade.

Instalado o complexo processo de ruminação analítica,  o cérebro entende que é importante não se envolver em qualquer distração, lançando mão da anedonia para isso.  A anedonia é uma condição psiquiátrica caracterizada pela falta de disposição para realizar tarefas cotidianas e pela incapacidade de obter prazer nessas tarefas quando em execução.  Desta forma, qualquer estímulo às distrações, especialmente aquelas que possam produzir motricidade, são sentidas como obstáculo à “ruminação analítica”.  

Considerações finais

Finalizamos esse texto apresentando as quatro alegações fundamentais das conclusões dessa metanálise.  1ª alegação: problemas complexos desencadeiam depressão; 2ª alegação: a depressão coordena mudanças nos sistemas corporais que promovem a análise sustentada do problema desencadeante; 3ª alegação: a ruminação depressiva geralmente ajuda as pessoas a resolverem o problema que desencadeia a depressão; 4ª alegação: a depressão reduz o desempenho em tarefas  porque a ruminação depressiva consome recursos limitados de processamento. 

Em futuras postagens, detalharemos esse estudo, especialmente os seus resultados no que diz respeito às formas de psicoterapias tradicionais para a depressão como o TCC, a eficiência e eficácia dos antidepressivos e as terapias que, realmente, apresentam os melhores resultados diante de uma grande amostragem e outros mitos consagrados referentes à depressão.


https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2734449/


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