MITOLOGIA DA PAIXÃO - Parte II: Acabou a paixão. E agora?
Psicanalistas, filósofos, psicólogos, poetas, entre outros, tem pensado sobre o que acontece quando a paixão acaba. Há muitas possibilidades. Vamos comentar sobre as três mais comuns.
O romance de Eros e Psiqué é um bom começo para escrever sobre isso. Na mitologia grega eles se casaram, mas para tanto, Eros teve que abandonar a vida lasciva em que vivia; deveria buscar outra forma de convivência amorosa. Inicialmente, ele tentou a indiferença unilateral. Psiqué sofreu com isso; tentou o suicídio como o fazem os amantes desencontrados; vagou inquieta (Inquietude) e triste (Tristeza) - ambas escravas de Afrodite. Eros e sua amada foram castigados por causa da paixão interrompida. No final da trama, a paixão teve que morrer para permitir o nascimento de uma outra forma de união entre ambos.
Vamos perguntar novamente: o que acontece com a paixão quando ela acaba? Isto quando ela não assombra um dos sujeitos
por anos e anos a fio... Para responder a
esta questão, penso como o psicanalista Francisco Daudt em seu livro intitulado a "Natureza Humana", vol.I. Consideramos que há três saídas possíveis: a
indiferença, o sadomasoquismo e o amor companheiro.
Na
indiferença como solução, a parte
que ainda continua apaixonada segue os dias stalkeando
o outro, seja perseguindo seus passos reais e virtuais ou até mesmo devaneando
em um sofrimento atroz e autoflagelante. O que é até uma evolução, pois o risco
de ações criminosas contra o outro não são pequenas. Por outro lado, aquele que
se desapaixonou primeiro segue em frente. Em alguns casos, quando a indiferença
é mútua, ambos seguem bem com suas vidas. Caso fosse uma rede social, está
relação seria um Facebook, onde um foi colocado no status de privacidade de
“conhecido” ou “restrito”. Caso fosse
uma música, esse destino da paixão seria a canção “Indiferença”, de Zezé de
Camargo e Luciano: “Porque não me telefona.
Dê notícias de você. Liga ao menos
pra dizer. Que o melhor é te esquecer. É a sua
indiferença que me mata. É uma invasão, um nó dentro de mim. Coração divide
em dois na sua falta. Uma parte é o começo a outra o fim”.[i]
No
desenlace sadomasoquista, um fica
aprisionado ao outro numa espécie de conluio amoroso espúrio, estejam juntos ou
separados. Quando separados, um alimenta
o ódio pelo outro. Inconscientemente, isto
é a forma neurótica que encontraram para representar o amor, já que o oposto do
amor não é o ódio, mas o poder. Amor e
ódio, nesse caso, são faces de uma mesma moeda: uma forma de delírio a dois com
rituais que vão, desde os maus tratos, a xingamentos, humilhações bilaterais e
picuinhas. Tudo isso podendo descambar em cenas dramáticas na forma de relações
amorosas ao melhor estilo das canções de Leandro e Leonardo: "E se de dia a gente briga, a noite a
gente se ama. É que nossas diferenças acabam no quarto em cima da cama. (Paz
na cama)"[ii]. Neste caso, há
ainda a plena vivência da ambivalência amor - ódio: "Perguntaram pra mim se ainda gosto dela. Respondi tenho ódio e
morro de amor por ela" (Tapas
e Beijos)"[iii]. Na forma mais grave, a relação sadomasoquista entre
casais "desapaixonando-se" pode acabar na delegacia ou até mesmo nas capas
de jornais como tragédias passionais. Vejamos essa canção: "Entre
tapas e beijos é ódio, é desejo, é amor, é ternura (Tapas e Beijos)."
Agora, olha que espantoso! Não é incomum
uma relação conjugal sadomasoquista fazer bodas de prata porque o fogo que alimenta a
paixão está sempre sendo atiçado. Caso fosse um brinquedo, está relação seria
uma montanha russa.
No
desfecho amor companheiro, a relação
sexual acontece, mas não tende a ser uma frequente queima de fogos em Copacabana no dia 31/12. Ele
é calmo, sem sobressaltos e muito previsível. Tratam-se como companheiros. Os
objetivos são criar os filhos e fazer projetos de longa duração. Driblam
a solidão típica destas relações através de uma intimidade psíquica e não
sexual, como se fossem dois confidentes que compartilham segredos. Há extrema identificação entre ambos` identificação como
mecanismo ineficaz de defesa do ego. Este
casal é resistente às infidelidades com o intuito de não quebrar o contrato ético, que inclui a autonomia de zonas sociais de convivência não
sobrepostas: não há grude e a confiança é sacralizada. Talvez seja o tipo de
casal que incorporou com mais força todos os limites impostos pela kultur,
com o objetivo de se distanciar do Homem que saiu das savanas africanas há centenas
de milhares de anos. Carinho e aconchego ganham uma direção de amizade: a única
forma de amor que é recíproca. Neste caso, o amor não foi um objeto, mas um ato
de vontade. No amor companheiro, o mais
importante são os projetos em comum, o crescimento e admiração mútua pelo fazer
de um e do outro.
Estes casais são aqueles que mais próximos chegaram daquilo que Eric Fromm, em seu livro “A Arte de Amar”, definiu como amor, ou seja, o amor não como a coisa em si, porém como uma vontade, a intenção de amar: “Se o amor fosse somente um sentimento, a promessa de se amar para sempre não teria sentido, porque os sentimentos vão e vem. Amar é uma decisão, é um juízo, é uma promessa”. Para Fromm, amar é uma arte, portanto exige estudo, dedicação e exercício. Desta forma, findada a paixão, manteve-se a intenção de amar. No entanto, este não é o desenlace mais comum para a paixão.
Caso fosse um poema, seria o “Amar”, de Carlos Drummond de Andrade.[iv]
Não obstante tantas ponderações, não resta outra saída ao homem a não ser se apaixonar, primeiro como imposição da natureza (instinto) mediada pela cultura (desejo) e, depois, amar como arte de viver. No meu entendimento, talvez somente a arte possa dar algum alento humanizado para as dúvidas dos corações; dúvidas essas que atravessam os tempos. Neste sentido, quero propor quatro poemas de Carlos Drummond de Andrade[v] para que cada um reflita sobre esse tema e tire suas conclusões: "O amor bate na aorta", “Necrológio dos desiludidos do amor”, "Destruição” e “Amar”, nessa ordem. Por fim, como disse o poeta “Que pode uma criatura senão,/ entre criaturas, amar?/ amar e esquecer, amar e malamar,/ amar, desamar, amar?”
[i] CAMARGO, Zezé. Indiferença. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=CD-BeazxEj0. Acesso em 17/06/2019.
[ii] MELO e RHAEL. Paz na cama. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hd9LSMi7fpQ. Acesso em 17/06/2019.
[iii] LAMAS e BUENO. Entre Tapas E Beijos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rVzmLvTeq1Y. Acesso em 17/06/2019.
[iv] ANDRADE, Carlos D. O amor bate na aorta. In: Brejo das Almas (1934). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9H7NnCdmvUY. Acesso em 18/06/2019; “Necrológio dos desiludidos do amor”. In: “Brejo das almas”, 1934. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AGtnx_BjycY. Acesso em 18/06/2019; "Destruição”. In: “Lição de coisas”, 1962. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ele0LYOwuV8. Acesso em 18/06/2019; “Amar”. In: “Claro enigma”, 1951. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MdB56brXojY. Acesso em 18/06/2019.
[v] Ver: COVO, R. B. O amor segundo Drummond. Disponível em: http://lounge.obviousmag.org/vagotonia/2015/01/o-amor-segundo-drummond.html. Acesso em: 18/06/2019

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