EM NENHUMA PARTE DO MUNDO EXISTE DIPLOMA DE PSICANÁLISE: Prólogo de Guitrancourt.

 


Por Jacques-Alain Miller - 15 de Agosto de 1988.

 

Apresentação

Este texto expressa a formação de um psicanalista segundo os moldes da  orientação lacaniana.

Guitrancourt é uma comuna do Departamento de Yvelines, Localizada na Ile – de – France. Em 2011, tinha uma população de 611 habitantes. Guitrancourt entrou para a História da Psicanálise porque em suas terras morou e foi enterrado o psicanalista Jacques LACAN (1901-1981). Em 1951 ele comprou uma propriedade nesta pequena cidade, onde gostava de receber amigos e alunos até o dia de sua morte.

Este texto foi traduzido do original por Wagner Chagas de Menezes – Psicanalista e Historiador.  O  título original é: “En ninguma parte del mundo existe Diploma de Psicoanálisis”.


O texto 

Em nenhuma parte do mundo existe diploma de psicanálise. Não por acaso ou por equívoco, mas sim por motivos devidos à essência do que é a psicanálise.

Não se vê qual poderia ser a prova de capacitação/formação que caberia ao psicanalista, já que o exercício da psicanálise é de ordem privada, reservada a confidência que o paciente faz a um analista daquilo que há de mais íntimo em suas reflexões, pensamentos.

Admitamos que o analista responda com uma ação que é a interpretação e que se dirige àquilo que chamamos de inconsciente. Poderia constituir esta ação o material para esta prova? – dado que a interpretação não é a culminação da psicanálise e que qualquer crítica de textos, documentos e inscrições, também a utilizam, mas, o inconsciente freudiano só se constitui na relação da palavra que já foi mencionada. Não pode comprovar-se fora dela. Além disso, a interpretação analítica não prova nada em si mesma, senão pelos efeitos imprevisíveis que provoca naquele que a recebe e isso no marco da mesma relação. Não há saída.

O resultado é que deveria investir-se no analisando para que, ele só, atestasse a capacidade do analista, se seu testemunho não estivesse distorcido pelo efeito de transferência que se instala na entrada e com total liberdade e não dessa nenhuma segurança em relação ao trabalho que se realizou. Tudo isso já se deixa vislumbrar que o único testemunho que poderia admitir seria de um analisando pós-transferência, mas que ainda quisesse servir a causa da psicanálise. O que aqui designo como testemunho do analista é o núcleo do ensino da psicanálise, enquanto este responde à pergunta de saber o que é que pode ser transmitido ao público de uma experiência essencialmente privada.

Jacques Lacan estabeleceu este testemunho sob o nome do passe (1967) e deu a ideia desse ensino, o mathema - aquilo que é aprendido - (1974). De um a outro há toda uma gradação: o testemunho do passe, ainda sobrecarregado com a particularidade do sujeito, está confinado a um círculo restringido, interno ao grupo analítico, o ensino do mathema, que deve ser demonstrativo, é para todos - e é aí onde a psicanálise se encontra com a Universidade.

A experiência se realiza na França há 14 anos, já acontece na Espanha há 4 anos através do Seminário do Campo Freudiano e a partir de janeiro, tomará a forma da Sessão Clínica.

Devo deixar bem claro o que é e o que não é este ensino. É acadêmico; é sistemático e gradual; o dão a responsáveis qualificados, se legitima com certificados e diplomas. Não é algo que habilite para o exercício da psicanálise. A exigência formulada por Freud, a partir de 1910, que um analista fosse analisado, além de ter sido confirmada por Lacan, foi radicalizada desde o momento em que uma análise não tem outro fim próprio que a produção de um analista. Acrescentemos que a transgressão se paga caro e em todos os casos por conta de quem a comete.

Seja em Paris, em Bruxelas ou em Barcelona, sejam modalidades públicas ou privadas, este ensino é de orientação lacaniana. Aqueles que a admitem se definem como participantes: este termo é preferível ao de estudante, para sublinhar o alto grau de iniciativa que lhes é pedido. O trabalho que oferecem não lhes será retirado: depende deles.

Não existe paradoxo em expor a mais estrita exigência para aqueles que se colocam a prova em uma função de ensino sem precedentes, já que o saber ensinado se consegue autoridade por sua coerência e somente encontra sua verdade no inconsciente, ou seja, num saber em que não há nada para dizer “eu sei”. O que se traduz no seguinte: somente se dispensa um ensino no campo freudiano sob a condição de sustentá-lo com uma elaboração inédita, por mais simples que seja.  Se começa, tanto na Espanha como na Bélgica, por parte do dito ensino. A clínica não é uma ciência, ou seja, não é um saber que se demonstre. É um saber empírico, inseparável da história das ideias. Ao ensiná-lo, não só estamos suprindo as debilidades de uma psiquiatria da qual o progresso da química tem deixado de lado, com frequência, seu tesouro clássico, como introduzimos também um elemento de certeza (o mathema da histeria).

No futuro, as apresentações de pacientes virão confirmar este ensino. Mais adiante, se acrescentará o âmbito chamado, na França, de «Études Approfondies» (Estudos Aprofundados), cujo recurso é a redação de uma tese de doutorado. De acordo com o que se fez antigamente sob a direção de Lacan, nós procedemos passo a passo.



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