CONVIVENDO E AJUDANDO PESSOAS EM DEPRESSÃO


Wagner  Chagas de Menezes – Psicanalista e Históriador


Conviver com pessoas portadoras de depressão é uma vivência que exige amor, paciência, dedicação e muito conhecimento da doença para poder ajudar, não se deixar abater e não reagir de forma emocional às demandas materiais e afetivas que o deprimido faz às pessoas que estão a sua volta, sejam parentes, colegas ou amigos. 


            Um bom caminho é entender que a causa do problema não é você, que está ali como “cuidador”. O deprimido, especialmente na “depressão reativa”, tem uma grande capacidade de fazer representações em função das suas questões mais interiores, inconscientes. Ele fala, age e pensa quase que no automático. Ele, quase sempre, transfere tudo! As pessoas deprimidas têm grande capacidade de projetar nas outras seus fantasmas, principalmente as imagens das suas figuras objetais. Nem sempre é para você que ela está falando, mas para as figuras que 
você representa, inconscientemente. O depressivo não sabe o que não quer saber. Entenda que as relações com pessoas deprimidas, especialmente quando estão em crises, são  simbólicas; quando a crise passa, tudo passa como se nada tivesse sido dito ou feito; até a próxima crise. 


            Abaixo estão algumas dicas sobre como lidar com pessoas deprimidas. Estas dicas foram compiladas de estudos clínicos e de depoimentos dos próprios deprimidos sobre como eles gostariam de serem vistos e acompanhados. De qualquer forma, vale uma dica do afamado Psiquiatra e Psicanalista Davi Zimerman, para quem o mais produtivo é sempre conter o impulso, raciocinando em três momentos: receba o estimulo, reflita e depois reaja de acordo. Nunca pule do estímulo para a reação; quase sempre piora as coisas. Em outras palavras: evite ao máximo contratransferir.

1) Nunca associe a depressão a uma questão moral, dizendo que o paciente não tem força de vontade e que não valoriza a vida que tem;

2) Aceite de imediato que o depressivo pode não ser grato a você e nem facilitar a convivência e os seus estímulos ao tratamento;

3) Aceite que não é incomum o deprimido tratar mal quem o auxilia. É importante saber que isto é um dos sintomas da doença. O problema não está com quem convive; o depressivo tende a ver quem está com ele, especialmente por mais tempo, como uma representação das questões inconscientes, as quais ele ignora;

4) Corte do seu repertório frases como "Você deveria se divertir mais!", "Por que não sai com seus amigos?” ou “Você é muito rígida, certinha. Leva a vida muito a sério!";

5) Lembre-se que a pessoa com depressão está passando por um profundo e insidioso problema de natureza fisiológica e psíquica, um “estado alterado da consciência”. Não são distrações variadas, como festinhas, churrasquinhos, karaokês,  drinks etc que irão tratá-lo, mas psicoterapia, mudanças no estilo de vida, uma alimentação livre de junk food e psicofármacos receitados por um psiquiatra;

6) Jamais tente animar uma pessoa que sofre de depressão com bebidas alcoólicas, mesmo que ela esteja bem naquele momento. As consequências no dia seguinte nunca são boas e quem fica com a administração das crises são os familiares próximos e não os “amigos”;

7) No auge da doença,  não insista para que o deprimido participe de grupos de apoio. Ele muito certamente não se beneficiará disto. É preciso restabelecer o equilíbrio e alguma objetividade para que o deprimido não fique voltado para si mesmo (Volte ao item 5);

8) Em casos crônicos, com famílias que têm vários membros afetados, a terapia de grupo é um bom caminho, bem como participar de grupos de apoio;

9) Sempre que puder, fique ao lado da pessoa deprimida, sentada a seu lado reconfortando-a, ouvindo-a e até mesmo segurando a sua mão;

10) Nestes momentos mais próximos não julgue, não critique nem faça juízo de valor. Ouça mais e fale menos.  O máximo que você pode dizer são palavras de acolhimento e afeto, demonstrando a importância da pessoa para você e colocando-se à disposição para ajudá-la;

11) Se você não sabe o que falar, não fale nada! Apenas ouça atentamente e sem fazer caras e caretas de qualquer tipo, mesmo que o deprimido fique em absoluto silêncio;

12) Se após uma fala, a pessoa com depressão se calar, não force a conversa. Aguarde em absoluto silêncio, conforme o item 11.

13) Evite a qualquer custo as seguintes frases. Estudos clínico comprovam que elas mais atrapalham do que ajudam:

a) “Olhe a sua volta! Há pessoas que estão em situação bem pior que você”.
b) “Procure ver a vida pelo seu lado positivo”;
c) “Isto que você tem são coisas sem sentido da sua cabeça. Livre-se delas!”
d) “Sai da cama e vai dar uma volta. Isto vai fazer você ficar mais animada e melhor! ”
e) “Vamos fazer compras! ”.
f) “Vamos a uma festa! Depois de tomar uns goles você vai se sentir bem melhor e esquecer isto! ”
g) "Você precisa de uma religião!"

14) Não tente valorar a dor do deprimido com frases do tipo:

a) “Você é muito sensível”;
b) “O problema é que você tem uma visão muito rígida da vida”;
c) “Tudo lhe incomoda, né? ”;
d) “Bola pra frente! ”;
e) “Você não é a única pessoa do mundo que tem problemas. ”

15) Evite dar conselhos e propor saídas e soluções além das que realmente funcionam, tais como procurar uma psicoterapia e um tratamento psiquiátrico;

16) Não compare a depressão da pessoa que está próxima a você com a de outras pessoas, mesmo com a sua experiência, caso já tenha passado realmente por tal situação. Isto nunca ajuda porque as dores são diferentes e tem motivações psíquicas e variáveis diferentes;

17) Colabore para a criação de um ambiente de paz e harmonia no entorno das pessoas com depressão;

18) Evite alterações bruscas na rotina de um depressivo, ao menos que essa mudança tenha sido previamente acordada com ele:

19) O estresse é um importante fator externo iniciador de crises depressivas. Portanto, evite levar problemas – seus e de outros -, temas desagradáveis e situações estressantes para as pessoas que sofrem de depressão.  Cale-se;

20) Quando possível, incentive e acompanhe a pessoa deprimida a um grupo de apoio à pessoas com depressão. Isto fortalece os laços, estimula a troca de experiências e desmistifica a doença.  Mas sem forçar nada e nunca com ela em crise.

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