SENTIMENTOS DE CULPA: as formas de gozar com a dor

 



Por Wagner Chagas de Menezes. Psicanalista e Historiador


A culpa é um Mecanismo Ineficaz de Defesa do Ego (MIDE) universal. Ela está diretamente ligada e submetida aos pressupostos culturais e históricos de cada sociedade. A ideia de que somente o sofrimento pode permitir a expiação da culpa, vem desde as manifestações anímicas dos povos primitivos; daí toda religião se amparar e explorar o binômio culpa-expiação.

Não existe nenhuma alma viva, com exceção dos psicopatas, que não tenha usado a culpa como uma forma de diluir a tensão nervosa. Isto se dá porque a culpa é o mais primitivo dos MIDE, pois surge da relação primeira entre os sujeitos e seus pais, desde a mais tenra idade. É praticamente impossível fugir dela. Mesmo pessoas bem analisadas a sente, mas ponderam sobre ela de uma forma mais produtiva, procurando elaborar suas causas e destinações.

Como os processos neuróticos são apenas quantitativamente diferentes dos processos normais, a linha entre estes e aqueles é muito tênue; daí a culpa ser o mais comum dos MIDE e, por isso mesmo, naturalizada.

O objetivo da culpa é buscar a punição para aplacar a ansiedade e o remorso, com ou sem a presença da autoridade externa. A psicodinâmica da culpa não precisa estar pautada na realização de um ato culpável em si, bastando senti-la como tal. Por exemplo: um adolescente que se masturba, sobrecarregado de interdições de natureza religiosas e morais, mesmo sem a reprovação verbal ou física dos pais, desenvolverá uma culpa por este ato em função da cultura e ficará à espera de uma punição para tal ato. Mesmo não consumando o ato, a simples intenção ou impulso de fazê-lo já será suficiente para gerar a culpa.

Usei este exemplo porque há alguns anos atrás, provavelmente em 2018, conheci um adolescente em um grupo de internet que sofria horrores com ideias intrusivas, paranoias com enredo de cunho religioso (o demônio o atormentava), remorsos e traços de psicose. Ele me chamou inbox e contou-me suas angústias. Morava em outro Estado e descreveu ter poucos recursos financeiros. Filho de uma família evangélica com uma visão fundamentalista das Escrituras, tudo indicava que os desejos naturais da adolescência, como aqueles que são distensionados pela masturbação, geraram uma culpa insuportável e reprimida no seio familiar. Essa culpa foi se potencializando e se complexificando ao ponto de se apresentar na forma dos sintomas acima descritos. Orientei a procurar o serviço público de assistência psicossocial mais próximo e relatar toda a sua aflição ao psiquiatra e ao psicólogo que o atendesse, imediatamente. Propus atendê-lo, emergencialmente, à distância por meio de videochamada, desde com a autorização expressa dos pais. Ele sumiu! Alguns meses depois, tive notícias dele pelo mesmo grupo de Facebook: o jovem atormentado havia amputado o próprio pênis na forma de um autoflagelo.  Há um episódio da série Psi (HBO) com um drama muito semelhante.

 O mecanismo neurótico está exatamente no fato de que nem a culpa e nem a punição são suficientes e eficientes para aplacar a ansiedade de forma definitiva. Sendo, assim, o ciclo neurótico desejo – medo - repressão – culpa – punição se repetem ciclicamente.

Tal punição é buscada por dois caminhos. Externamente:  inconscientemente incitando ações reativas do outro na forma de broncas (admoestações, humilhações, diminuição do afeto) e até surras (castigos físicos de todos os tipos); internamente: por meio de autoflagelos (ruminações, depressão, manias, obsessões e até mesmo o autoflagelo físico).

Engana-se quem pensa que a culpa seja capaz de impedir alguém de cometer um ato doloso ou culposo. Pensando conforme a teoria estrutural de Freud[1], o que ocorre é uma solução de compromisso entre o ego e o superego. Explico. Se o sofrimento expia a culpa, o inconsciente irá estimular todos os esforços possíveis para realizar o princípio do prazer. Este princípio está intimamente ligado ao propósito principal do aparato mental: realizar os desejos inconscientes para obter prazer primeiro e evitar ou adiar a dor.  A questão é que nem sempre a dor é evitável se o desejo a ser realizado é um ato que já tenha sido punido ou tenha sido passível de punição, inicialmente pelos pais, segundo as normas da cultura na qual se está antropologicamente inserido.

Em outras palavras, a punição, muito mais o excesso dela, funciona como um salvo conduto para que o ato culpável possa ser realizado constantemente num ciclo evidentemente psiconeurótico.  A dor da punição funciona aí como uma desculpa para a realização de novos atos que levem à culpa, ou seja, sabendo-se que vai ser punido, ainda mais ser for ser punido com excessos, o sujeito poderá não se importar em cometer o ato culpável, pois inconscientemente já tem a certeza prévia de que terá a sua disposição uma ação externa superconsciente que irá lhe proporcionar um escoamento, ainda que temporário, da tensão psíquica gerada pelo medo, a ansiedade e o remorso.  Neste processo, as tendências não confessáveis acabam por se esfriarem, ainda que temporariamente; o consciente aceitará o sofrimento como moeda de troca pela satisfação e gozo do desejo realmente culpável ou sentido como tal.

Isto é muito comum entre criminosos reincidentes. Estudos sociológicos e antropológicos tem demostrado que os sofrimentos penais, cuja execução extrapola o estipulado no Código Penal e no Código de Processo Penal, na forma de condições desumanas, torturas físicas e psicológicas, não possuem as qualidades intrinsecamente necessárias à humanização, recuperação e a reintegração social. Diante dos maus tratos, os criminosos ficam prejudicados em sua consciência social de justiça e passam a pensar e agir no sentido de acreditar que o sistema, ao agir à margem da lei e de maneira desumana, lhe deu “autoridade” para ignorar as convenções, levando à reincidência.

Em termos psicodinâmicos, este processo é o mesmo que dizer que o ego aliciou o superego para o trabalho de solução de compromisso; o ego comprou-o com seu próprio sofrimento para reduzir sua dependência em relação a ele e como recompensa poder satisfazer os desejos reprimidos ou recalcados.

De que formas os sujeitos expiam as suas culpas? Eles castigam-se por meio dos seus sintomas. Há muitas formas; desde as mais conscientes até as mais inconscientes. As autoflagelações (físicas: podendo ser amputações, cortes na pele, socos em si, lamúrias autoacusatórias, certos tipos de alcoolismo) e as penitências, religiosas ou não, se enquadram nos primeiros casos.

Ao nível do inconsciente, algumas compulsões e fenômenos psicossomáticos de toda ordem são manifestações da associação deste MIDE com outro, denominado “conversão”. A conversão ocorre como MIDE, quando uma tendência estranha tenta aflorar ao consciente e sofre uma repressão gigantesca, obrigando a manifestação elétrica do pensamento reprimido ou recalcado como  rejeição a ele. Essa imagem reprimida na forma de impulsos elétricos é liberada para percorrer certas inervações do sistema neuromuscular voluntário e sensorial.

Quando a necessidade de punição associada à culpa se torna erotizada, ela se transmuta em masoquismo, ou seja, o sofrimento se torna um fim em si mesmo, uma necessidade, e deixa de ser um mecanismo para aliviar a culpa e se torna uma forma de obter prazer. Aqui há uma certa confusão quanto ao estatuto desse prazer.  Não se trata de sentir prazer com a “dor”, mas sentir prazer com o prazer gerado no outro com sua própria dor.  O masoquismo responde ao princípio de que toda forte tensão emocional pode ser erotizada.

Na culpa não masoquista, a dor é um meio, podendo ser até educativa. Na culpa masoquista, a dor é um fim em si, pelo qual o excesso de excitação psíquica gerada por ela encontra vazão por meio da deformação erotizada do princípio da realidade.  Essa deformação consiste no fato de que o princípio da realidade tem como objetivo a adaptação social do ego por meio da ação do superego. Quando há essa deformação, o sofrimento deixa de ser pedagógico para se tornar um objeto erótico: goza-se não com a dor em si, mas com o prazer que essa dor gera. Com a erotização da dor como um objetivo em si, a culpa é aliviada, o que torna a abordagem deste MIDE muito complexa e de difícil elaboração para o analisando.

[1] O Modelo Estrutural surgiu da insatisfação de Freud com a primeira tópica (Inconsciente, Pré-consciente e Consciente), também conhecido como “Modelo Topográfico” (sistemas), já que ela não conseguia explicar muitos fenômenos psíquicos. Então, Freud elaborou uma segunda teoria ou segunda tópica (1923). Foi com a segunda tópica que ele propôs um acréscimo ao conhecimento psicanalítico já existente com a concepção do aparelho psíquico denominado “modelo estrutural” ou “dinâmico”.  Neste modelo, “estrutura” significa um conjunto de elementos com funções determinadas e que interagem e se influenciam constantemente. O modelo estrutural foi exposto pela primeira vez por Freud em “O ego e o id e outros trabalhos (1923-1925)”, e consiste em uma divisão da mente em três instâncias psíquicas: o id, o ego e o superego, que são sobrepostas pelos três sistemas do “modelo topográfico”.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Dilema do Fim da Análise: Estamos presos ou existe uma saída?

O AMOR TRANSFERENCIAL: quando a analisanda se apaixona pelo analista

MÃE É UMA SÓ? E SE FOSSEM DUAS?