NOTAS SOBRE A PAIXÃO ROMÂNTICA OU ASSIM É SE LHE PARECE

 

Almeida Júnior (1850-1899).Moça com livro


        Já ouvi dizer que, numa tentativa de provocar o pai da psicanálise sobre a eterna lutar entre desejos e repressão à realização de desejos, lhe perguntaram o que estava certo.  Nessa conversa não confirmada, sua resposta foi curta e profunda: “Está certo aquilo que dá certo”. 

Obviamente, se Freud respondeu isso, ele não estava levando em consideração a legalidade ou a justiça do ato, mas a consecução do desejo.  Assim, se um meliante furta a bolsa de uma idosa indefesa, não se pode negar sobre qualquer ponto de vista da realidade material que o ocorrido é um delito e deve ser punido na forma da lei.  Mas da perspectiva do ladrão e do seu desejo, este não era correto a priori, mas tornou-se a posteriori quando foi bem-sucedido.  Deu certo porque ele estava certo em fazê-lo.  Estranho, não?

Mas o que tem isto a ver com as paixões românticas?  Tudo, como veremos.  Inicialmente, creio ser necessário desconstruir a dicotomia preconceituosa e falsa entre paixão e amor.  Ambas as coisas são os dois lados da mesma moeda. 

É possível que tenha existido, mas não conheço nenhum ser vivente que chegou ao amor sem antes passar pela paixão.  A paixão é o impulso desejante inicial que fará com que qualquer um invista sua carga de energia mantenedora da vida, a libido, em direção a um objeto externo de desejo, neste caso o objeto amado (a).  Não há nem na lógica formal, muito menos na lógica dialética nenhuma forma de raciocínio que explique um como o oposto do outro.  Muito pelo contrário. 

A dialética é um bom recurso para analisar as coisas que não tem constância, são instáveis por natureza, como nós, seres humanos.  Pela lei da mudança dialética tudo está em movimento e se transmutando permanentemente.  Portanto, a paixão pode, eu disse pode, se transformar em amor.  Mas, desgraçadamente, há a lei da contradição, pela qual uma coisa pode se transformar no seu contrário ou até mesmo morrer para renascer.  Uma paixão transformada em amor pode se transformar novamente em paixão quando este acaba.  Para a Lei da mudança dialética nada é definitivo; nada é uma vez para sempre: ou a paixão se transmuta em amor e, mesmo neste caso, este amor da forma em que foi construída na transição da paixão, jamais será o mesmo como visto e sentido inicialmente.  O novo sempre vem, mesmo que seja um novo amor no mesmo amor.   Isto porque tudo é processo e está em constante transformação.

Foi Lacan quem melhor definiu a relação entre duas criaturas que se aproximam pela corte.  Ele foi categórico.  Não é o homem que escolhia a mulher, mas a mulher que se deixava escolher.  Lacan tinha extrema preocupação com os jogos de amor, ao ponto de achar haver amor mesmo quando este não era correspondido, na medida em que o outro gerava uma energia sobre o outro, ainda que a desconhecesse. 

E aqui está o princípio da incerteza dialética, ou seja, não há garantias de que um investimento amoroso também tenha retorno amoroso e quando isto acontece é da ordem do “milagre” ou, em termos amplamente psicanalítico, pode ser da ordem da neurose.  Quando isto ocorre, dependendo da maturidade dos envolvidos, uma outra lei da dialética pode vir a atuar: a “interpenetração dos contrários”. 

Desgraçadamente, a paixão não realizada em amor pode ser transformar em ódio; daí que nesta história amor e ódio andarão de mãos dadas, alimentando com migalhas a paixão não correspondida.  Neste caso, a paixão não correspondida só será realizável apenas em nível de devaneios ou mesmo nos sonhos. 

Neste ponto, lamento decepcionar, mas o investimento de amor no objeto externo não é atual.  É tão antigo quanto o tempo em que cada um desejava, só e somente só, os seios maternos.  O homem estará sempre numa busca desenfreada pelo prazer que estes objetos de prazer lhe davam, dos três aos quatro primeiros anos de sua vida.  Neste ponto não tem jeito, duas figuras importantes estavam lá presentes, assistindo tudo e retribuindo seus desejos primários: seu pai e sua mãe ou seus substitutos. 

Freud chamou estas figuras importantes de “objetais”.  Para cada um de nós, naquela tenra idade, elas não passavam disto: objetos de prazer pelo que nos davam: alimentos, acolhimento e conforto.


Wagner Chagas de Menezes é Historiador e Psicanalista

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