MECANISMOS INEFICAZES DE DEFESA DO EGO II: Projeção

 

É impressionante a quantidade de pessoas que projetam nos outros características, comportamentos, emoções e atitudes que, visivelmente, lhes são próprias. Estaremos hoje diante de um surto de um Mecanismo Ineficaz de Defesa do Ego chamado "projeção"?  O mais comum dos MIDEs é a Formação Reativa, mas vejo a projeção ganhar corpo em tempos de redes sociais.

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(Por Wagner Chagas de Menezes _ Psicanalista e Historiador)


    projeção surge na medida em que alguém entende que é mais fácil para o Ego enfrentar uma angústia real (externa) do que a neurótica ou moral (interna), já que aquela é um medo externo/objetivo e não subjetivo e pessoal como esta.  A angústia de natureza desconhecida, parcial ou integralmente, se encontra em arquétipos que chegam à consciência carregada de autocensura, culpa e recriminações, oriundas do Inconsciente ou do Pré-consciente.  Pela projeção, o desconhecido é creditado a um agente objetivo, seja ele um sentimento ou um outro sujeito.  Desta forma, alivia-se a tensão interna, projetando-a para fora.

Portanto, diante de uma angústia neurótica ou moral, em defesa do ego acorre o mecanismo ineficaz de defesa conhecido como projeção.

         Como exemplo, podemos imaginar uma pessoa que muito odeia a sua mãe por ter sido por ela abandonada ou violentada de alguma forma.   Esse ódio é um sentimento que tem tudo para ser censurado, tanto por razões culturais como religiosas, em função da sacralização da figura materna em sociedades judaico-cristãs.  Para aliviar a angústia gerada pelo ódio censurado, o sujeito passa a projetar em um outro ou outra esse sentimento.  Por exemplo: escolhe uma pessoa do trabalho, que nunca fez nada contra ela, mas é de pouca conversa não lhe dando muito ouvido, deduzindo:  "Ela tem profundo ódio por mim".  Feito isso, com este mecanismo de defesa, a tensão interna é aliviada: o seu ódio foi projetado para fora, em direção à pessoa da sua colega de trabalho.

         Os objetivos da projeção foram atingidos ao diminuir a angústia gerada pelo desprazer,. Houve uma substituição do objeto de desprazer por um outro de menor perigo, porém mais aceitável pelo Superego.  Dessa forma, permitiu-se a expressão dos impulsos agressivos e sentimentos conflitantes sob o disfarce de defesa contra seus supostos "inimigos".

Podemos concluir que a projeção transfere aos outros características que se quer reprimir em si mesmo.

           As máximas da projeção são: 1) Tudo que é ou foi reprimido pode ser projetado nos outros; 2) Culpas pessoais são exacerbadas por projeção nas falhas dos outros.

            Contudo, há um tipo de projeção que não ocorre por impulsos hostis. Um bom exemplo é o que ocorre na erotomania ou Síndrome de Clérambault, quando as próprias inclinações sexuais conscientes são atribuídas a outro. Um peculiar exemplo desta variante da projeção é aquilo que ocorre quando uma pessoa de nível socioeconômico inferior passa a pensar que outra de nível socioeconômico muito maior está apaixonada(o) por ela, sem nenhuma fundamentação concreta. Este tipo de projeção é muito comum entre fãs e seus ídolos, quando aqueles acreditam que estes também o amam. Nos casos mais graves, este mecanismo de defesa é tão ineficaz que faz da erotomania um transtorno psiquiátrico delirante, podendo ser bastante perigoso.

        Desde Hipócrates, na Grécia Antiga, já se conhece este mecanismo de defesa. Como manifestação psiquiátrica, o primeiro registro data de 1623, por autoria de Jacques Ferrand, autor da expressão “paranoia erótica”. No século XVIII era vista como uma doença mental. Contudo, foi o Francês Gaëtan Gatian de Clérambault, que em 1921 fez a revisão do tema, introduzindo a concepção atual de erotomania: uma crença ilusória. Casos extremamente graves de erotomania estão associados à esquizofrenia.

    No Brasil, o caso mais conhecido desta forma mais paranoica do mecanismo de defesa foi aquele envolvendo a apresentadora e ex-modelo brasileira, Ana Hickmann, e seu fã, Rodrigo Augusto de Pádua.  Rodrigo tinha então 30 anos e a assediava maniacamente.  Ele acabou assassinado pelo cunhado de Ana, que o desarmou em uma de suas abordagens. O primo de Rodrigo relatou que, no Instagram, ele dizia que Ana Hickmann também o amava. Este exemplo resume bem que o que se projeta é sempre o próprio desejo que, inconsciente, foi reprimido primeiro e depois recalcado, aflorando na consciência na forma de Projeção. 


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