Jogou-se do 40º andar, mas ao passar pelo 25º andar viu uma comemoração pela janela e disse para si mesmo: "Até aqui tudo bem!"

 



MECANISMOS INEFICAZES DE DEFESA DO EGO III: racionalização


Por Wagner Menezes*


    O Mecanismo Ineficaz de Defesa do Ego, denominado racionalização, consiste na escolha dos mais aceitáveis motivos, dentre um complexo deles, para explicar um específico comportamento. Ao fazer a escolha, o ego passa a permitir a repressão de outros motivos inconscientes, inaceitáveis. A racionalização é um MIDE muito comum de se observar.


A identificação do discurso racionalizante no analisante se dá pela observação da articulação semântica das suas frases explicativas. Franz Alexander propõe que o racionalizador descreve as respostas para suas perguntas por negação e não por afirmação. Por exemplo, pergunta: “Por que você ajudou seu amigo?”; resposta de um racionalizador: “Ajudei-o por lealdade e não porque desejasse ser superior a ele”. A segunda oração foi gerada para justificar a primeira. É nela que se encontra a intenção inconsciente, ou seja, “ser superior a ele”. Nesse caso, não podemos esquecer de Freud ao ensinar que os mecanismos de defesa nunca aparecem sozinhos, mas aos pares e até aos trios.  Assim, a negação e as razões encobridoras foram convidadas pelo ego para reforçar a racionalização, formando uma falsa consciência para encobrir as razões inconscientes.


    Nos atos humanos, que não são submetidos a mecanismos de defesa, o sujeito usa conjunção coordenativa aditiva “e” para denotar ambas possibilidades de ajuda: “tanto isto quanto aquilo”. Portanto, a fórmula dos atos humanos não submetidos ao mecanismo de defesa da racionalização não seria “Ajudei-o por lealdade e não porque desejo ser superior a ele"; mas sim "e porque me sinto na obrigação de ajudá-lo"; ou "e porque esperei que em alguma outra oportunidade ele me possa ajudar”. E por aí vai...

Na prática psicanalítica tenho observado que o uso da racionalização como mecanismo de defesa é diretamente proporcional ao grau de instrução de uma pessoa e/ou sua inteligência, ou seja, quanto mais instrução e/ou inteligência, o sujeito mais lança mão de mais e mais racionalizações.

Uma imagem bastante interessante para entender a racionalização é a do suicida que se joga do último andar de um prédio bem alto e logo depois se arrepende e, ao passar pela metade deste edifício, olha para dentro de um apartamento e, de relance, observa uma cena idílica: uma família jantando alegremente. Neste momento ele racionaliza e pensa consigo mesmo: “Até aqui tudo bem!”. Um bom exemplo são as falas do ex-Ministro Paulo Guedes e outros capas-pretas do governo Bolsonaro: "Até aqui, tudo bem", mas o chão estava logo ali... Todos os indicadores econômicos e sociais mostravam, claramente, que o solo duro e áspero estava muitíssimo próximo.

Outro exemplo exuberante de racionalização como mecanismo de defesa podemos ler em “Berenice” (1835), conto de Edgar Allan Poe (1809-1849). Neste conto, Egeu, primo e noivo de Berenice, observa atormentado o constante definhar de sua amada, devido a sua saúde bastante precária. A partir daí, desenvolve uma neurose obsessiva pelos dentes da noiva: brancos e perfeitos. O surpreendente final do conto corrobora que Egeu, ao fazer de Berenice um objeto de amor e para negar (MIDE: Negação) a realidade da sua decrepitude, agarrou-se vivamente às únicas partes do corpo dela que ainda exibiam algum viço: os brancos e perfeitos dentes. Como um objeto de admiração prestes a ser perdido, ignorou a gravidade do quadro geral da situação médica e resolveu reter uma parte da beleza (os dentes) do seu objeto de amor da forma mais bizarra possível, possivelmente em surto delirante. Daí que também podemos pensar que no momento da racionalização, há um investimento maior da parte psicótica da personalidade de cada um (PPP), como defendia Wilfred Bion, importante psicanalista inglês.

Entende-se que a racionalização atende ao primeiro princípio da psicodinâmica, para o qual todos os atos humanos são superdeterminados e motivados por razões conflitantes. Então, dentre todas elas, escolhe-se aquela explicação que, aparentemente, não coloca em xeque o desejo recalcado, fazendo-a passar por um filtro racional, baseada em falsas premissas.


*Wagner Chagas de Menezes é Psicanalista e Historiador

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