QUANDO A EDUCAÇÃO VAI PARA O DIVÃ: uma contribuição ao debate sobre a relação professor-aluno-família


 

(Por Wagner Chagas de Menezes)[1]






Apresentação

           

            Recentemente dois vídeos viralizaram nas redes sociais.  O primeiro mostra uma criança de sete anos agindo de forma bastante agressiva na sala dos professores da Escola Municipal Paulo Freire, em Macaé, enquanto servidores públicos da educação assistem à crise do infante, passivamente ou comentando.[1]   Em uma outra produção, a Sra. “Virgu Ferreira” posta no seu Facebook e no Youtube um vídeo em resposta ao caso anteriormente citado, explicando que seu filho tem TDAH e foi muito mal compreendido nas quatro escolas particulares por onde passou; tendo encontrado uma escuta adequada em uma professora de uma determinada escola pública.[2]

            Estes dois vídeos são a ponta do iceberg da crise na relação professor-aluno-família.  O que vemos é uma educação pública em crise, violência escolar, índices de aproveitamento preocupantes, professores em perigo, estressados e até doentes[3]; conflitos entre professores-alunos-responsáveis; alguns alunos e pais desinteressados e outros preocupados.  O rosário de problemas e lamentações não é pequeno.  Educar é um ofício impossível?  Parece que sim, mas nos seus limites.  É sobre isso que queremos nos debruçar.

            Consideramos que os estudos existentes sobre as conexões entre a contribuição do pensamento psicanalítico para as questões conflitivas mais prementes da educação ainda não chegaram aonde poderiam chegar: ao rés-do-chão das escolas.  Basicamente, eles ainda permanecem no campo teórico e na clínica dos atores educacionais, sem tentar uma demonstração empírica deste conceitual.

 

 A crise

            Nos dias de hoje os problemas da escola estão relacionados às incertezas sobre a identidade da escola, a crise de ethos dos docentes e ainda às exigências para que as crianças incorporem um personagem chamado aluno em detrimento da criança[4].  Não se desconsidera aqui os problemas relacionados aos dramas familiares dos alunos e à cultura local do entorno de cada escola.  A escola pouco pode fazer para modificar esta realidade externa, a não ser quando ela cruza os portões da escola e passa a interferir no cotidiano escolar.  Mesmo neste caso, a ação transformadora é de dentro para fora e de alcance variável, imponderável e incomensurável.

            No primeiro caso a escola apresenta dificuldades em se apoderar das coordenadas simbólicas das quais ela é um dos seus dispositivos porque tem sido esvaziada de poder por um sem-número de quesitos, os quais vão desde a omissão do Estado, má-formação de quadros e até problemas na formação docente, bem como as resistências em querer saber do desenvolvimento das questões psicossexuais das crianças e suas relações com as suas figuras objetais e substitutas, como os professores.

    Chamo a atenção para as limitações do conhecimento pedagógico para entender os elementos subjetivos e imateriais da relação professor-aluno que se trava no cotidiano[5] escolar.  Questiono se não há ali algo além influenciando os conflitos inerentes ao ato de ensinar.  Quais elementos desconhecidos e até invisíveis levam a um lugar e a momentos que não se desejava viver?  Por que se age de determinada forma e às vezes se veem atormentados com o próprio modus operandi et faciendi?  Como e por que determinados conflitos e reações surgem?  De que formas e por que os professores têm se lançado ainda mais nas manifestações “presenteístas”?  Qual o nível de conhecimento dos professores sobre a contribuição das ciências da mente para a prática docente?  Estas e muitas outras questões assombram e ainda agem em grande parte do corpo docente e discente das escolas, gerando conflitos relacionais que incrementam psicopatologias já existentes por meio de acting out[6], transferências e contratransferências; mecanismos de defesa do ego, principalmente as “formações reativas, entre outros.

              Ao que tudo indica, o impossível parece estar na natureza do ofício de educar, tal como do de curar e de governar, como dizia Freud em “Prefácio à Juventude Desorientada, de August Aichhom: “Há muito adotei o dito espirituoso dos três ofícios impossíveis, isto é, educar, curar e governar”.[7]  Cada um destes ofícios está, mais do que qualquer outro, imerso em duas dimensões que se sobrepõem ao limite do imponderável de cada individualidade educadora e educanda: o simbólico e o real.  Daí que o professor está fadado a viver com aquilo que não dá ou pode não dar certo; aquilo que tal qual um feitiço do tempo, volta sempre e, então, ele é instado a tentar de novo, de novo e de novo e cada vez mais.  Ao que tudo indica, parece que os professores não têm clareza que suas práticas acontecem diante da imprevisibilidade da relação com o outro, seus desejos e sua falta, e que ele vai, queira ou não, ocupar o lugar das figuras objetais dos alunos no seu processo de recuperar o que foi reprimido e recalcado e se transformou em neurose em função do interdito da cultura.[8]

            A abordagem proposta entende a questão da educação e do educar como um discurso e, portanto, permanentemente analítico; compondo e se recompondo ao sabor da(s) realidade(s), que por sua própria natureza dinâmica, tende a atropelar de roldão qualquer tentativa de torná-la previsível. 

            Além disto, a psicanálise se propõe a colaborar com o debate sobre as vicissitudes do educar.  Ela não se propõe a taxar o que deve ser feito, nem a dar conselhos.  Seu objetivo é estabelecer a dialogia sobre o que não se deve fazer.  Isto, necessariamente, passa pelo campo do interdito, ou seja, a aceitação por parte de alunos e educadores da impossibilidade de se realizar os desejos de ambos na sua totalidade.


 

A precariedade do ato educativo e seu impacto na relação ensino-aprendizagem


             Primeiramente, afirmamos que todo ato educativo é, inevitavelmente, precário; que todo adulto é particularmente e parcialmente "ignorante" em relação à criança e ao seu desenvolvimento psicossocial e psicossexual, embora isto possa ser contornado.  Além disso, a particular atmosfera da relação “educador e educando” encontra-se no campo das dicotomias de amor e "ódio"; do prazer e do desprazer, típicos dos interesses e das interações humanas.

            Este quadro nos leva a pensar que os educadores poderiam substituir a pretensão pedagógica do "ideal educativo" pelo debate do que é necessário acontecer para que haja qualquer educação.[9]   Para tanto, deveriam aceitar que não existe só uma direção pedagógica que conduza as crianças a um "bom termo" educacional, pois há uma dimensão inconsciente em qualquer ser humano, a qual põe em xeque a ilusão de um implícito contrato prévio entre educador e educando com o objetivo de alcançar melhores resultados, já que se trata do campo do "controle impossível" da vontade de um ou de mais envolvidos.

            Salientamos, ainda, que toda educação repressiva é impotente para alcançar seus fins na criação de adultos responsavelmente livres e mentalmente saudáveis.  Para reforçar este raciocínio, podemos observar que toda educação é uma educação por concorrência, desejemos ou não.  Os educadores concorrem com a educação que o educando recebeu dos seus pais; estes concorrem com a educação recebida dos avós do educando, e assim vai...  Sem contar a educação desejada pelos parâmetros governamentais e que refletem a ideologia econômica, social e educacional do grupo político que se encontra no exercício do governo e/ou do poder e não raramente se choca com aquilo que se deseja e serve para as necessidades populares. 

            Estes níveis de educação familiar - a família extensa – somados àqueles das famílias que compõe o círculo de amizades e influências sobre a criança, vão constituindo o que chamamos de seu “capital cultural familiar”.  Estas camadas de educação familiar e comunitária são as bases da “cultura local”.  O “capital cultural familiar” é quase que totalmente definido entre os 5 e 8 anos de idade, quando fecha o ciclo edipiano.  Todo investimento cultural que a família empreende em seus filhos nesta fase (museus, teatros, música, passeios culturais e toda forma de gosto e sensibilidade pelas artes) influencia sobremaneira a forma de ver, sentir e projetar a vida, servindo de fundamento para uma salutar construção do que em psicanálise chama-se “realidade psíquica”.  Nesta fase, o fundamental é aprender brincando e brincar de aprender.  Isto não significa que depois disto não se consegue mudanças, já que as estruturas cerebrais não são estáticas, mas plásticas.

             Cabe o alerta de que os problemas educacionais não devem ser reduzidos aos determinantes sociais, algo já comprovado pela clínica psicanalítica.  O contrário, seria relegar amplas parcelas da sociedade a uma força sociocultural centrípeta, da qual ninguém escaparia.  Na prática, todo educador sabe que isto não é verdade e que ele pode fazer a diferença.  Neste caso, cabe lembrar a frase do Talmude (Mishnah Sanhedrin) quando diz que “Aquele que salvou uma vida, salvou o mundo inteiro”, ou seja, se não for possível conseguir o melhor com todos, caso pelo menos se consiga com alguns ou muitos, já é bastante coisa.

             Na relação entre educador e criança em sala de aula o que atrai o aluno para aprender?  O que não somente a criança, mas todos ser humano deseja é o desejo do outro.  Em outras palavras, o que uma criança deseja em sala de aula é aprender.  Mas o que?  A-prender o desejo do outro; o desejo do adulto por aquilo que ele ensina.  Então, a paixão do mestre por seu mister; pelo assunto que explica naquele momento, atrai uma criança para aquele momento mágico quase que por hipnose.  A criança se pergunta: “O que há de tão gostoso e interessante neste assunto, que faz como que o mestre jogue a sua energia por um caminho de quase ‘gozo’?”  Quando isto ocorre, o conteúdo científico é assimilado quase que por simpatia, pois o desejo de saber do aluno nunca está aferrado ao conteúdo, mas à pessoa do professor.

            Então, o essencial é aprender, ou seja, a-prender aquilo que está lá na posse do outro.  Trata-se de uma operação ativa e não de recepção passiva de algo que o outro ensina.  Isto é um exercício e muito se assemelha ao trabalho psicanalítico de arqueologia da verdade de cada um.  Juan Davi Nasio nos deu uma dica deste procedimento ao indicar que “(...) o melhor que poderia acontecer quando ensinamos não é veicular um saber, informar este ou aquele conceito, mas ensinar a encontrar a verdade. (...)[por meio] (...) do exercício do esquecimento”.[10]

            Este “esquecimento” do professor deve ser proposital para que permita ao aluno a possibilidade de sonhar com novas descobertas. Guardadas as devidas proporções e objetivos, este procedimento é muito semelhante à “atenção flutuante” proposta por Freud. [11]

            Neste trabalho de escutar, a fala do educador é duplamente traiçoeira com ele mesmo e, in limine, com o estudante.  Em toda fala há uma dupla emissão: o que falamos propriamente dito e o não dito, o qual deixamos escapar pelo tom da voz, gestos, trejeitos, caras, bocas, dedos e poros, sem a nossa restrita vontade como resultado do “(...) desenvolvimento de uma incompatibilidade entre o ego e alguma ideia a ele apresentada.  Esta ideia incompatível é forçada para fora do ego consciente por meio da conversão da excitação em uma inervação somática”.[12]

            Tais representações inconscientes se encontram na perna que balança, na cabeça que coça e dói, em náuseas e em quase toda sorte de agitações e manifestações da ansiedade.[13]  Nas suas “Primeiras Publicações Psicanalíticas” Freud já havia observado estes fenômenos que são inocentes somente na aparência.  Tratam-se de “resíduos mnêmicos” de representações incompatíveis que emergem ao nível pré-consciente, comunicando-se com o ego por meio de inervações somáticas.  Freud dizia que era a “dor” por meio de sensações físicas e movimentos motores “participando da conversa”.  Estão presentes nas mãos que tamborilam a mesa, no lápis e no caderno que aluno esqueceu, nos dedos que freneticamente teclam o celular ou os tablets durante as aulas,[14] proporcionando fuga do mundo real para as fantasias do mundo virtual e demonstrando onde está o desejo.  Neste ponto habita um grande perigo para o professor, mas não para o mestre, na medida em que estas manifestações inconscientes são a primeira janela aberta para a Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional (SEP).[15]

            Ora, um ponto a ser ressaltado no processo de ensino-aprendizagem na visão analítica é o desejo; o desejo de aprender.  E para isto, devemos abandonar momentaneamente as tentativas de síntese e buscar ver os sujeitos em suas individualidades desejantes.  Vamos contar duas histórias para ilustrar onde queremos chegar.  Aos 71 anos, Sigmund Freud foi para discursar na escola primária na qual havia estudado.  Já  famoso, concluiu:  “(...) é difícil dizer se o que exerceu mais influência sobre nós [aluno] e teve importância maior foi nossa preocupação pelas ciências que nos eram ensinadas, ou pela personalidade de nossos mestres. É verdade (...) os caminhos das ciências passavam apenas através de nossos professores”.[16]

            Os sentimentos que o professor despertava nele eram ambivalentes: amor x ódio; simpatia x antipatia; crítica x respeito; oposição x submissão; orgulho x inveja; justiça x injustiça.  Estes sentimentos ambivalentes poderiam deter, incentivar e até bloquear o aprendizado.  Concluiu: “No fundo, sentíamos grande afeição por eles, se nos davam algum fundamento para ela [a afeição], embora não possa dizer quantos se davam conta disso.  (...) orgulhávamo-nos de sua excelência, seu conhecimento e sua justiça”.  Assim, havia alguma coisa na pessoa daqueles mestres cujo desejo e excelência no ensinar despertavam também o desejo do aprendiz e, consequentemente, um conflito emocional caracterizado pela ambivalência de sentimentos.

            A outra história é uma história de criança.  Uma história de desejo do desejo do outro.  Duas crianças brincando.  Uma delas está apaixonadamente brincando com um carrinho novinho, que emite sinais sonoros e de luzes.  Gira, vira e rodopia.  A outra criança apenas observa.  Quando esta criança tenta brincar com o carrinho espetacular é energicamente repelida.  Cabisbaixa, recolhe-se e vai brincar com um velho carrinho simples de plástico, sem rodas e sem nenhum atrativo extra. A imaginação desta criança repelida voa com o “carrinho desprovido de graça”.  Corre com ele para lá e para cá; imita a sirene de uma viatura policial; sobre as paredes; rodopia e faz manobras alucinantes pelo chão e sobre os móveis. Há muito desejo nesta brincadeira.  A outra criança, a que está com o carrinho novinho, observa com um brilho no olhar o outro menino a brincar quase em êxtase.  Imediatamente ele abandona seu carrinho cheio de recursos e vai lá disputar e até tomar com energia o carrinho antes desinteressante.  Assim também o é com a aula e o professor desta aula.

 

O Olhar psicanalítico sobre a ilusão tecnocientificista

             Se a pedagogia busca a síntese, a psicanálise busca o seu oposto, ou seja, a análise.  Como análise, vê gestados já na graduação de cada professor, os conflitos gerados no exercício de se estabelecer um pacto civilizatório em sala de aula.  Ao sair da universidade, sob a tutela da formação científica e dotado do saber científico, o jovem professor tem na mente um sujeito (aluno) que só existe no campo da abstração.  É isto o que a ciência constrói: sujeitos abstratos.

            Ao iniciar o seu ofício, o jovem professor encontra uma grande diferença entre os sujeitos abstratos estudados na universidade e aqueles realmente encontrados na labuta diária na escola.  E por que isto acontece?  Porque a ciência busca estabelecer a prática da ordem organizando os fatos da realidade por meio de leis e regras; enquanto a educação é do campo da desordem, ou seja, o educador, de chofre, tem que lidar com o caos nas suas mais variadas intensidades, profundidades, proporções e formas da vida escolar, da administração escolar e das práticas educativas.  Dele, se exige que se equacione tudo isto, em função do que ele tem que ensinar.  Isto pode ser demais se ele mesmo não estiver em um diálogo constante consigo mesmo, suas fantasias, desejos, fixações, regressões, transferências e contratransferências na sua relação com os alunos e, principalmente, o seu narcisismo.[17]  Tomado deste saber, o professor deve generosamente se autoperdoar.

            O narcisismo na educação exige uma atenção redobrada porque é silencioso e perigoso.  Silencioso porque tende a naturalizar o comportamento de exigir que os alunos reflitam a imagem e desejos do professor; perigoso porque se esta imagem não é refletida como narciso gostaria, ele se revolta.  Caso ela seja refletida como se imagina, narciso acaba paralisado em si mesmo por achar que a sua imagem é a melhor se não a única imagem possível a ser espelhada.

            A postura do educador tem uma grande importância para a educação e desenvolvimento dos egos envolvidos no processo educativo.  Eric Fromm defendeu que é muito mais difícil ter consciência dos próprios processos mentais do que do próprio corpo; isto porque muitas pessoas não conheceram um referencial, um modelo de normalidade mental para lhes inspirar construtiva e produtivamente.  Inicialmente, as crianças tomam o funcionamento psíquico das suas figuras objetais como norma.  Mesmo que estas figuras não sejam amorosas, íntegras e de valor, as crianças acharão que este é o padrão de normalidade.  Ao chegar na escola elas encontram outros padrões de atitudes humanas.  Inicialmente, isto causa uma resistência às novas normas e procedimentos comportamentais, gerando sentimentos ambivalentes.  Esta adaptação é difícil e o professor consciente da sua importância substitutiva não deve descuidar do ensinamento mais importante para o desenvolvimento humano: o exercício social da alteridade.  Este só se pode compartilhar com  a resença de uma pessoa madura e amorosa, o professor, que deve se preservar como uma imagem do funcionamento humano completo e são, ou seja, como ego auxiliar. 18]

            Toda tarefa educativa é dilemática.  Não há como fugir disso.  Os principais dilemas estão ligados à finalidade da educação.  Qualquer finalidade preestabelecida para educação será problemática, pois ela carrega, imanentemente e permanentemente, a mosca do conflito entre o indivíduo e seus aspectos primitivos contra os ditames da civilização, bem como seu inventário de conhecimentos humanos, dos quais o professor deve se apoderar de ser, também, seu defensor e guardião.  Ainda que se compreenda equivocadamente o aforismo Freudiano sobre a educação como uma prática impossível e defender que o limite da educação é o desejo do outro, Freud e a psicanálise são unanimes em asseverar que é possível estender este “limite” na medida em que se tenha conhecimento racional de onde está o desejo, pois onde está o desejo, aí estará o seu ego.  À Educação caberia à profilaxia das atitudes dissociais na escola, enquanto para a Psicanálise caberia a remissão dos sintomas, que tiveram origem nos dramas dos “romances” familiares.

            Sinteticamente, estabelecendo uma delimitação epistemológica entre o que cabe às teorias tecnocientificistas da Educação e a Psicanálise, recuperamos a lavra de Maria Cristina Kupfer: “Quer-se entender como uma criança pensa? Leia-se Piaget.  Quer-se entender o que é que sente uma criança, ou por que é agressiva? Leia-se Freud”.[19]

            O ato educativo é uma síntese entre o instruir e o educar.  Qualquer dicotomia que se faça entre estas duas dimensões da educação não é somente falsa, mas é também uma negação da realidade.  Não é possível instruir sem educar; não há a possibilidade de se estabelecer um ambiente instrutivo favorável ao conhecimento (produção, síntese e transmissão) sem o concomitante ato de educar.  Onde terminar o professor, começa o educador em uma mesma pessoa.

            Em ambientes desfavoráveis, o ato educativo pode até ser lento, porém não deve ser dissociado e ignorado.  Achar que há a garantia de se alcançar um sem o outro é uma proton pseudo.  São falsas as premissas que possam garantir tal ambivalência, e falsas premissas levam a falsas conclusões.  Por outro lado, a ideia de que não é possível instruir sem prévia educação é uma declaração falseada como resultado de uma falsidade anterior.  Como a lógica formal não pode dar conta deste problema, cremos ser melhor considerar a relação "instruir-educar" pelas leis da dialética, tal como um movimento desigual e combinado.

 

Um ethos para o magistério

             Toda profissão tem seu ethos.  Mas também é bem verdade que a convivência acrítica e naturalizada com as realidades do entorno e seus personagens podem enfraquecer, distorcer, desfigurar ou até mesmo obliterar à quase totalidade o ethos de uma profissão.  O professor não está imune a isto.

            O ethos de uma profissão não deveria sofrer influência do ethos de outras profissões, seja por contágio social ou por uma leitura acrítica do fazer do outro, mas é possível que isto venha a ocorrer, aprofundando uma crise de identidade pré-existente.

            A palavra ethos é de matriz grega e está ligada à natureza em si e, culturalmente, à natureza do homem em sociedade, o que pressupõe uma série de características específicas que diferencia um grupo de pessoas (categoria) de outras.  Ethos é identidade no sentido de morada natural (primeira grafia do original em grego) do estilo de vida, hábitos, valores e costumes em ação, tal qual no exercício da profissão (segunda grafia do original em grego).  A identidade de cada sujeito corresponde ao seu “caráter”[20] e nele está contido todos as três partes do sistema psíquico (Consciente, Pré-consciente e Inconsciente) e suas três instâncias (Id, Ego e Superego).  Da sua conotação natural, a noção de ethos sofre a inflexão da cultura, estabelecendo a ordenação, o modo de operar, de fazer e ver o mundo, as pessoas, as coisas e as relações entre elas a partir de normas claras e regras de conduta insofismáveis a serem seguidas por todos os membros de uma comunidade profissional.  O profissional que está imbuído do ethos da sua comunidade de trabalho, possui interiorizado os protocolos de ação que estabelecem parâmetros de comportamentos e orientações para as atitudes habituais, as quais vão de encontro aos impulsos dos desejos individuais em prol do coletivo e do imperioso,

            Diante de uma crise estrutural, a reconfiguração do “viver-professor” também deve ser estrutural, ou seja, de dentro para fora, enquanto vai atuando conjunturalmente; também nisto a psicanálise tem uma grande contribuição a dar não somente em teoria, mas também na prática pessoal, por meio da análise clínica ou da autoanálise.  Neste último caso, a partir da leitura e estudo sistemático dos conceitos fundamentais da Psicanálise; no caso da Educação, especialmente de Sigmund Freud, Melanie klein e Donald Woods Winnicott.

            Os professores, grosso modo, vivem uma crise de identidade profissional de representação, relacionada às matrizes inconscientes da relação com o outro (o aluno) e da importância psíquica da sua autoimagem para a formação de adultos mentalmente saudáveis e produtivos.  Isto, também, muito em função de uma formação acadêmica que não contempla as especificidades do magistério e as necessidades especiais para o fortalecimento de sua psiquê, preparando-o para o encontro com o outro.  Isto produz um não querer saber da realidade do aluno (criança) e, consequentemente, a exigência do espelhamento segundo o tipo de narcisismo de cada profissional.  Por último, as crianças ainda estão sendo instadas a representar o papel de aluno (sujeito abstrato) no período e no espaço escolar, esperando que os representantes modelares no processo civilizatório (pai, mãe e professores) lhes ofertem com convicção, clareza e diálogo a bussola sociocultural a seguir.

O professor também é indevidamente e acriticamente responsabilizado pelo não aprendizado do aluno.  Freud, já bem cedo, indiretamente, havia chamado a atenção para o papel do professor ao defender que ele é o “representante de uma visão mais livre e superior de mundo; [elucidando] onde a ignorância deu origem ao medo”[21], mas também deve estar tecnicamente preparado para defender a entrada do aluno na civilização e psiquicamente maduro para não sucumbir às manifestações inconscientes da barbárie e das projeções das relações edipianas de cada criança e adolescente, na forma de contratransferências muito influenciadas pela ideologia dominante da exclusão, da criminalização, da medicalização e da judicialização das  questões sociais e psicológicas.

  Esta representatividade do professor está calcada no Princípio da Realidade; princípio pelo qual o ego do aluno mede a si mesmo em função do ego do professor, mentalmente dizendo: “Eu deverei ser assim...”: o ideal de ego.  O Princípio da Realidade impõe ao educador, como um dos seus atos de ofício, a implementação das necessárias restrições para a adaptação do aluno à realidade externa.

A fala do mestre é sua ferramenta de trabalho.  É nela que se encontra parte da sua autoridade.  Em alguns casos até grita-se e discute-se, na maioria das vezes sem resultados construtivos e permanentes.  A autoridade do adulto em sala de aula também se encontra nos exemplos dados pelo detentor da mestria.  Quando esta autoridade não é exercida diretamente ou é delegada a terceiros, aluno e professor entram no terreno perigoso do Princípio do Prazer a partir da idealização de um ego ideal: o ego do aluno mede a si mesmo pela sua capacidade de ser e ter sem limites e a qualquer custo, ou seja, conseguir o prazer evitando o desprazer, sem obstáculos de qualquer natureza, tal qual o bebê que se lança ao seio da mãe certo de que obterá o que quer e saciará o seu desejo natural.[22]

            Do encontro entre estes dois princípios, o choque fatalmente ocorrerá, o que é bem natural.  Todavia, o conflito com consequências imponderáveis começa quando o professor “assim” não assume a sua representatividade plenamente, o seu ethos, ou seja, com autoridade, mas sem autoritarismo; evitando, em casos mais graves, representar um verdadeiro acting out, através do qual os sujeitos - alunos e professores - passam ao ato inconscientemente para evitar a verbalização da lembrança recalcada e para se furtar à transferência.

O conhecimento do mecanismo da transferência, constransferência e acting out são de suma importância para a construção do ethos dos professores enquanto categoria.  No entendimento deste mecanismo encontra-se os fundamentos que faz do mestre da educação um sujeito muito especial, diferenciando-o de qualquer outro profissional, seja um médico e, principalmente, do policial, entre outros.  É através da transferência que os conteúdos recalcados e reprimidos emergem do inconsciente; por meio dela os traumas e fixações da infância, e até mesmo mais recentes, marcando o comportamento escolar e as todas as escolhas relacionais ao longo da vida.  Tudo isto de forma inconsciente.

 

É um bom recomeço imbuir-se de uma dimensão imaterial e individual dos sujeitos da educação, como a proposta neste trabalho, para a consecução da educação, desde que ela se dê diante de uma consciência clara do processo em andamento e seus limites; desde que não seja imbuída de uma vontade messiânica e quixotesca para que cada sujeito não se isole e adoeça psiquicamente, porém que se torne livre dos recalques e repressões.


[1] - Wagner Menezes é Professor da rede pública municipal de ensino da Cidade do Rio de Janeiro, Historiador e Psicanalista.  Dedica este texto, que é um esboço, a todos os seus colegas de profissão.  Não há neste texto nenhuma intenção de impor uma verdade; mesmo porque não há A Verdade.  Trata-se de uma pequena contribuição ao debate e à reflexão sobre os problemas mais prementes da Educação no Brasil para além do saber pedagógico e não contra ele, já que a metodologia e a teoria psicanalítica se estabelecem dentro de uma outra episteme.  Não é uma contribuição complementar, porém suplementar.~




[1] A este respeito, ver:  Menino Quebra Escola no RJ.  Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7l_CMH8XqTQ.  Acesso em: 02/11/2015.

[2] A este respeito ver: Sobre o vídeo do menino agressivo na escola.  Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=ea6_jgXScOI.  Acesso em: 02/11/2015

[3] Pesquisa feita pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de SP estima que dos 40% dos 40% dos professores afastados do trabalho por problema de saúde, ou seja, 16% do total de professores afastados teve diagnóstico de ansiedade e depressão.  Disponível em:   http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2012/10/40-dos-professores-afastados-por-saude-tem-depress

ao-aponta-estudo.html.  Acesso em: 01/05/2015.

[4] Em linhas gerais para a psicanálise a criança existe até o final do período de latência, em torno dos 13 anos.  Mas a idade cronológica não é o determinante, pois como o inconsciente é atemporal, esta infância pode se estender até os 15 anos, por exemplo, o que coincide com o 9º ano do ensino fundamental.

 

[6] Acting out é o nome dado pelos psicanalistas de língua inglesa ao mecanismo psíquico agieren (em alemão: ato) que também relaciona-se com a chamada ab-reação (descarga emocional cujo objetivo é descarregar o afeto ligado ao trauma, anulando as patogenias psicossomáticas). . O acting out pode ocorrer em qualquer momento e qualquer lugar, como numa unidade escolar, toda vez que alguém se vê angustiado e não consegue verbalizar esta angústia, colocando em prática pulsões, fantasias e desejos.  Um exemplo é o estudante que, volta e meia, joga o lápis ou a borracha no chão para observar por debaixo da saia da coleguinha (pulsão escópica); quando conta uma história fantasiosa para justificar um mal comportamento (fantasias); ou mesmo quando age de maneira sexista como ato contínuo de um movimento, tanto com colegas e professores (as) (desejo sexual não sublimado).  Pelo acting out o sujeito cede inconscientemente às pressões do id para deixar vir à tona na forma de ação aquilo que sempre emerge na forma de compulsão às lembranças como resíduos mnêmicos desconexos, sem que o Ego, enfraquecido, consiga dar outro destino socialmente favorável a isto, já que não teve a oportunidade de elaborar.  Esta “passagem ao ato” é um disparate dirigido ao “Outro” e revela a violência da conduta por meio de ações que ultrapassam o seu próprio querer consciente e, portanto, controle.  Este “Outro” é o imago da criança, do adolescente ou do adulto estudante, substituído pelo professor no momento do drama.  O professor que não conhece este mecanismo, contratransfere negativamente quase que automaticamente, com consequências imprevisíveis.  Neste sentido se enquadram as agressões, os delitos, os atos dissociais (vulgarmente conhecidos como delinquência) e – in limine – os suicídios.  No setting analítico o psicanalista tem seus mecanismos metodológicos de ação, encaminhando a neurose comum em neurose de transferência.  Mas o que pode fazer o professor numa hora desta?  Há alguns caminhos: 1) Escutar a demanda com atenção e dar um destino socialmente aceitável para ela, buscando simbolizá-la para transformá-la lá adiante; 2) Proporcionar momentos recreativos por meio de jogos lúdicos coletivos e dinâmicas de grupo para que as crianças possam simbolizar seus medos, desconfianças, traumas, condutas dissociais etc, sempre com a ponderação do educador, incentivando, corrigindo destinos e sinalizando para caminhos mais virtuosos.  Ao fazer isso, o educador mudou sua posição transferencial de substituto da figura objetal neurótica da criança para aquele que proporciona um destino sublimado para as pulsões.

[7] Freud, Sigmund.  Prefácio à juventude desorientada, de Aichhorn.  In:  O Ego e o Id e outros trabalhos (1923-1925).  Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição standard brasileira, Vol. XIX.  Rio de Janeiro : Imago, 1996, p.307-308.

[8] A consciência deste processo é importante para que se possa tirar os professores dos consultórios de psiquiatria e coloca-los no divã.

[9] VOLTOLINI, Rinaldo.  Educação e Psicanálise.  Rio de Janeiro: Zahaar, 2011.

[10] NASIO, Juan Davi.  Como trabalha um psicanalista?  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999, p.30.

[11] “Termo criado por Sigmund Freud em 1912 para designar a regra técnica segundo a qual o psicanalista deve escutar seu paciente sem privilegiar nenhum elemento do discurso deste e deixando que sua própria atividade inconsciente entre em ação”.  “Atenção flutuante”.  In: ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel.  Dicionário de Psicanálise.  Rio de Janeiro : Zahar, 1998, p.39.  V. Tb.: NÁPOLI, Lucas.  O que é atenção flutuante?”  Disponível em:  http://lucasnapoli.com/2013/08/03/o-que-e-atencao-flutuante/.  Acesso em: 02/05/2015.  V. tb.: 

 

[12] Sigmund Freud, juntamente com Josef Breuer, já nas suas primeiras publicações, escrevendo sobre o caso de Miss Lucy, falava desta capacidade de partes do corpo entrarem na conversa entre as instâncias psíquicas como um sintoma da neurose.  FREUD, Sigmund e BREUER, Josef.  “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar (1893).  In: Estudos sobre a histeria (1893-1895).  Obras Psicológicas de Sigmund Freud: edição standard brasileira.  Vol. II.  Rio de Janeiro: Imago, 1996, p.148-149.

[13] Freud, Sigmund.  A etiologia específica da histeria In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud.  Vol. III – Primeiras publicações psicanalíticas (1893-1899).  Rio de Janeiro: Imago, 1996, p.179.

[14]A Organização Mundial da Saúde (OMS/ONU) já nomeou este quadro de uso compulsivo das novas tecnologias durante o trabalho, caracterizado pelo acesso a dados e informações que não correspondem às necessidades funcionais, como um “transtorno de comportamento” denominado presenteísmo. O conceito é recente e está associado com a insegurança e a qualidade do ambiente de trabalho.  Joan Benach, Carles Muntaner, Vilma Santana (Chairs).   Employment Conditions and Health Inequalities: Final Report to the WHO Commission on Social Determinants of Health (CSDH).  Spain, Canada, Brazil: World Health Organization, 2007, p.160.  Disponível em http://www.who.int/social_determinants/resources/articles/emconet_who_report.pdf?ua=1.  Acesso em: 27/12/2014.

[15] Este transtorno psíquico se manifesta na relação estressante com o trabalho e seu local de exercício.  Com sintomas variados, tais como aqueles muito característicos nos portadores de depressão, esta síndrome se caracteriza pelo desenvolvimento lento (a evolução da doença pode ocorrer em poucos anos ou demorar décadas) e sistêmico de um comprometimento contínuo da saúde física, emocional e ocupacional.  Por apresentar um conjunto de sinais e sintomas muito característicos de outras doenças, foi denominada “síndrome”.  Ela já é a principal causa de afastamento de docentes em todos os níveis de ensino.

[17] A este respeito ver: Lacan e a Educação – caos.  ATTA Mídia e Educação.  Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aUo90xo-zDE.  Acesso em 29/12/2014.

[18] FROMM, Erich.  El arte de amar.  Buenos Aires: Paidós, 2014, p.154-155.

A este respeito, não obstante o estudo ser apenas conceitual, ver o trabalho de Maria Gisela Viana Martins, para quem “a disseminação da importância do conceito de transferência para o professor pode promover mudanças de atitude de sua parte que resultem em uma melhor relação com seus alunos, viabilizando assim a construção interativa das condições adequadas para a consecução dos objetivos de favorecer a permanência dos alunos na escola, assim como sua inserção cidadã na sociedade e no mercado de trabalho.”.  MARTINS, Gisela Viana Martins.  Relação transferencial entre professor e aluno na educação de jovens e adultos.  Dissertação (Mestrado) – Universidade Veiga de Almeida, Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade, Rio de Janeiro, 2014.

[19] KUPFER, Maria Cristina.  Freud e a Educação: o mestre do impossível.  São Paulo : Scipione, 63-64.

[20] Em Psicanálise, o uso da expressão caráter não tem a mesma conotação do senso comum, não sofrendo juízo de valor, já que as estruturas psíquicas são passíveis de modificações por meio da análise, amparando-se na plasticidade do cérebro.

[21] FREUD, Sigmund.  “A psicoterapia da histeria (1893).  In: Estudos sobre a histeria (1893-1895).  Obras Psicológicas de Sigmund Freud: edição standard brasileira.  Vol. II.  Rio de Janeiro: Imago, 1996, p.295-296.

[22] “Princípio de Prazer/Princípio de Realidade”.  Cf. ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel.  Dicionário de Psicanálise.  Rio de janeiro: Zahaar, 1998, p. 603.

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