POR QUE A MEDITAÇÃO NÃO É ANTIPSICANALÍTICA?

 



(Por Wagner Chagas de Menezes – Psicanalista e Historiador)



A meditação é uma atividade emocional e cognitiva que gera mudanças cerebrais; quanto a isto há pesquisas, estudos e comprovações científicas. A meditação promove a ação do cérebro para mudar a si próprio.

 Quando não havia remédios para depressão, insônia, transtorno de humor bipolar, ansiedade e outras mais, o que faziam os povos das grandes civilizações da antiguidade oriental para superar e aliviar estes sofrimentos da mente? Como aplacavam os efeitos das dores existenciais?

 No oriente e até mesmo no ocidente, caso consideremos a oração silenciosa, além do uso de ervas (fitoterapia), o centro da abordagem destes males tinha na meditação o seu centro gravitacional de terapia.

 Não obstante a má divulgação sobre os benefícios da meditação, já se começa a notar um retorno social a práticas milenares de abordagem das questões existenciais e até mesmo dos traumas psicológicos e outras manifestações estruturais e não-estruturais da mente.



Meditação e saúde do corpo e da mente


No centro deste retorno a um conhecimento milenar e fundador está a meditação. Existem algo em torno de 222 técnicas de meditação, com algumas variações regionais. Basicamente, a meditação é o exercício de treinar a atenção e a consciência plena (mindfulness) por meio do foco e concentração na respiração. É exatamente a percepção e a atenção que se dá ao caminho do ar pelo sistema respiratório, desde a inspiração até a expiração, que leva o praticante da meditação à plena consciência do seu corpo, do outro e sua posição subjetiva e objetiva na vida e no planeta; ao apaziguamento da mente; ao controle dos pensamentos; ao estabelecimento de visão de foco para a solução de problemas e consecução de projetos e outros objetivos. Não é demais lembrar que tudo o que fazemos e pretendemos fazer, começa na mente.

Sabemos que as práticas de exercícios de meditação não foram desenvolvidas como tratamento; como terapia. Contudo, as pesquisas do maior especialista mundial sobre a abordagem científica do tema, o Dr. Richard J. Davidson, tem demonstrado que a prática da meditação tem utilidade psicoterapêutica.

Os estudo e pesquisas realizados no Center of Healthy Minds (CHM) da University of Wiscosin-Madison, apontam para outras formas de meditação para além daquelas imagens popularizadas pelos mestres e gurus orientais: um sujeito sentado, de perna cruzadas, coluna ereta, mão espalmadas unidas na altura da boca, roupas brancas ou laranja e olhos fechados. A visão moderna e científica da meditação como uma forma adjuvante de terapia é chamada pelos pesquisadores do CHM de “mindfulness-based cognitive therapy" (MBCT) (terapia cognitiva baseada na consciência plena). Ela pode ser praticada em posição de lótus; relaxadamente sentado numa cadeira ou poltrona com a coluna ereta; ou em pé e ereto; ou em atividades físicas contemplativas como o Tai Chi Chuan e a caminhada para laser; enfim...


A meditação e seus resultados concretos


O que já se descobriu sobre a relação entre meditação, psicoterapias e atividades físicas? Chegou-se à conclusão de que o cérebro tem tamanha neuroplasticidade, que é capaz de consertar a si próprio, ou seja, estabelecendo outras conexões neurais capazes de atingir um objetivo não possível pelo caminho anterior. O cérebro humano é dotado de enorme neuroplasticidade eu os limites desta capacidade ainda são desconhecidos.

Segundo o Dr. Richard J. Davidson, pessoas que sofrem de depressão severa e que tem praticado a MBCT, conseguem prevenir recaídas a estados depressivos em um programa de 60 semanas de meditação de duas vezes ao dia. Este resultado foi mais efetivo do que outros tratamentos utilizados anteriormente.

 Através de pesquisas e estudos com crianças diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) e veteranos de guerra que sofrem com o Transtorno do Estresse Pós-traumático, concluiu-se que o MBCT pode alterar as funções cerebrais nos circuitos da atenção, da emoção e dos processos interiores mais relevantes, tais como da solução de problemas pessoais e projetos de vida. O Dr. Richard Davidson, assim como os Phd. W. Kuyken, F.C. Warren e R.S. Taylor conseguiram demonstrar alterações nos circuitos neurais mas não como se alteram.



Meditação (MBCT) e Psicoterapias dinâmicas: uma interação possível


A interação da MBCT como uma atividade adjuvante das psicoterapias é muito promissora. Mesmo sendo importante esta sinergia terapêutica, a metodologia e as consequências desta parceria ainda precisam avançar para se delinear com precisão que aspectos da consciência plena são afetados pelos processos psicológicos da psicanálise, por exemplo, assim que dinâmicas da psicanálise são mais afetadas pela meditação.

Mas já podemos assegurar que a meditação pré-sessão ou mesmo em qualquer outro momento e circunstância, potencializa o “relaxamento da atenção inibidora”, o que permite uma aumento quantitativo e qualitativo de emissão de atos falhos - “lapsos da fala” pela lavra de S. Freud -, uma das quatro formas de expressão do inconsciente reprimido ou recalcado.

 Em “lapsos da fala”, Cap. V do “Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901)”. Freud nos fala “(...) que o fator positivo que favorece o lapso da fala (o fluxo desinibido de associações), bem como o fator negativo (o relaxamento da atenção inibidora) tem invariavelmente um efeito conjunto (...). Acontece que, com o relaxamento da atenção inibidora - ou, em termos ainda mais claros, em consequência desse relaxamento - o fluxo desinibido de associações entra em atividade” (Freud, 1996 : 74). A experiência que temos vivido com um paciente bastante resistente à análise e com um forte racionalização como mecanismo de defesa do ego é que a meditação proporcionou uma mais rápida e expressiva fragilização do fator negativo que inibe a emergência do fluxo de pensamentos inconscientes, permitindo que o fluxo desinibido de associações entre em atividade com mais brevidade e frequência.

Neste sentido, observamos em nossa clínica que os pacientes que foram incentivados a praticar a meditação, incluindo aí uma meditação de 10 a 20 minutos antes das sessões, também aumentaram a sua capacidade de lembrar dos sonhos. Os sonhos analisados desencadearam processos psíquicos mais frequentes de elaboração de material inconsciente, com resultados terapêuticos que vão desde a melhora no quadro neurótico inicial apresentado, até o encurtamento do tempo para surgirem os primeiros resultados mais visíveis para o psicanalista e principalmente o analisando.

Mesmo levando em consideração que o mestre de Viena nos alertou que a “psicanálise é sempre questão de longos períodos de tempo (...) de períodos maiores que o analisando espera” (Freud, 1996 : 145), nada nos impede de agregar valores e descobertas científicas não disponíveis na Viena Fin de Siècle.

E é neste diapasão de acompanhar o desejo de Freud que a psicanálise pudesse dialogar e até se amparar também em novas pesquisas, que pedimos carona nas “pesquisas do Center of Healthy Minds da University of Madison-Winscosin, [que] já demonstram, que as psicoterapias breves, tal qual a Psicoterapia Breve de Orientação Psicanalítica, são mais eficazes quando agregam outras formas de práticas contemplativas de busca da consciência plena em prol da saúde mental, tais como a meditação e determinadas práticas de atividades físicas (...)”.

Talvez seja incentivador levar em consideração o adágio do psicanalista britânico Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979) para quem o psicanalista poderia empreender movimentos não exatamente psicanalíticos, mas jamais antipsicanalíticos. Alem do mais, diante da tendência que a psicanálise tem à ortodoxia, resgato o pensamento de uma dos maiores estudiosos do pensamento científico, Thomas Samuel Khum (1922-1996), o qual, em sua “As Estruturas das Revoluções Científicas”, criticou a “paralisia de paradigma” levada à cabo pelo “efeito paradigma”. Em sua visão, o pensamento de ordem positivista é o que garante que um determinado conhecimento mantenha-se dentro da moldura para melhor ser aceito pelos pares.  Contudo, são nos limites da moldura que estão sendo gestadas as soluções para os novos problemas gerado por novos objetos.

A jornada é longa. Esta parceria está só se iniciando e já apresenta resultados promissores. Não obstante as críticas que certamente virão, o tempo dirá; alea jacta est.



Fontes Inspiradoras


CHINMOY, Sri. 222 técnicas de meditação. [s.l] : [S.e], [s.d].

 Falk Leichsenring, DSc; Sven Rabung, MSc; Eric Leibing . The Efficacy of Short-term Psychodynamic Psychotherapy in Specific Psychiatric Disorders A Meta-analysis. Disponível em: http://jamanetwork.com/journals/jam.... Acesso em 11/04/2017.

FREUD, Sigmund. Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901). OPCSF-ESB, Vol. VI. Rio de Janeiro, : Imago, 1996. Cap. V: Lapsos da fala, pp. 67-114.

FREUD, Sigmund. O Caso Schereber, Artigos sobre a Técnica e outros trabalhos (1911-1913) . OPCSF-ESB, Vol. XII. Rio de Janeiro, : Imago, 1996. Sobre o início do tratamento (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I - 1913), pp. 136-158.

LUTZ, Antoine; BREFCZYNSKI-LEWIS, Julie; JOHNSTONE, Tom e DAVIDSON, Richard J. Regulation of the Neural Circuitry of Emotion by Compassion Meditation: Effects of Meditative Expertise. Published: March 26, 2008. Disponível em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001897. Acesso em 04/05/2017.

MENEZES, Wagner chagas de. PSICOTERAPIA PSICODINÂMICA BREVE E SAÚDE MENTAL: eficácia e eficiência da Psicoterapia breve de orientação psicanalíticaDisponível em: https://www.facebook.com/notes/psican%C3%A1lise-e-sa%C3%BAde-mental/psicoterapia-psicodin%C3%A2mica-breve-e-sa%C3%BAde-mental-efic%C3%A1cia-e-efici%C3%AAncia-da-psicote/1789542131361666/Acesso em: 11/04/2017.

KUHN, Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo : Perspectiva, 1992.

Richard J. Davidson, PhD. Mindfulness-Based Cognitive Therapy and the Prevention of Depressive Relapse: Measures, Mechanisms, and Mediators. Disponível em: https://centerhealthyminds.org/assets/files-publications/DavidsonMindfulnesBasedJAMAPsychiatry.pdf. Acesso em: 12/04/2017.

 University of Wiscosin-Madison, Center of Healthy Minds. Disponível em: https://centerhealthyminds.org/

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