POR QUE A MEDITAÇÃO NÃO É ANTIPSICANALÍTICA?
(Por Wagner Chagas de Menezes – Psicanalista e Historiador)
A
meditação é uma atividade emocional e cognitiva que gera mudanças cerebrais;
quanto a isto há pesquisas, estudos e comprovações científicas. A meditação
promove a ação do cérebro para mudar a si próprio.
Meditação
e saúde do corpo e da mente
No centro deste retorno a um conhecimento
milenar e fundador está a meditação. Existem algo em torno de 222 técnicas de
meditação, com algumas variações regionais. Basicamente, a meditação é o
exercício de treinar a atenção e a consciência plena (mindfulness) por meio do
foco e concentração na respiração. É exatamente a percepção e a atenção que se
dá ao caminho do ar pelo sistema respiratório, desde a inspiração até a
expiração, que leva o praticante da meditação à plena consciência do seu corpo,
do outro e sua posição subjetiva e objetiva na vida e no planeta; ao
apaziguamento da mente; ao controle dos pensamentos; ao estabelecimento de
visão de foco para a solução de problemas e consecução de projetos e outros
objetivos. Não é demais lembrar que tudo o que fazemos e pretendemos fazer,
começa na mente.
Sabemos que as práticas de exercícios de
meditação não foram desenvolvidas como tratamento; como terapia. Contudo, as
pesquisas do maior especialista mundial sobre a abordagem científica do tema, o
Dr. Richard J. Davidson, tem demonstrado que a prática da meditação tem
utilidade psicoterapêutica.
Os estudo e pesquisas realizados no Center
of Healthy Minds (CHM) da University of Wiscosin-Madison, apontam para outras
formas de meditação para além daquelas imagens popularizadas pelos mestres e
gurus orientais: um sujeito sentado, de perna cruzadas, coluna ereta, mão
espalmadas unidas na altura da boca, roupas brancas ou laranja e olhos
fechados. A visão moderna e científica da meditação como uma forma adjuvante de
terapia é chamada pelos pesquisadores do CHM de “mindfulness-based cognitive
therapy" (MBCT) (terapia cognitiva baseada na consciência plena). Ela pode ser
praticada em posição de lótus; relaxadamente sentado numa cadeira ou poltrona
com a coluna ereta; ou em pé e ereto; ou em atividades físicas contemplativas
como o Tai Chi Chuan e a caminhada para laser; enfim...
A meditação e seus resultados concretos
O que já se descobriu sobre a relação entre
meditação, psicoterapias e atividades físicas? Chegou-se à conclusão de que o cérebro
tem tamanha neuroplasticidade, que é capaz de consertar a si próprio, ou seja,
estabelecendo outras conexões neurais capazes de atingir um objetivo não
possível pelo caminho anterior. O cérebro humano é dotado de enorme
neuroplasticidade eu os limites desta capacidade ainda são desconhecidos.
Segundo o Dr. Richard J. Davidson, pessoas
que sofrem de depressão severa e que tem praticado a MBCT, conseguem prevenir
recaídas a estados depressivos em um programa de 60 semanas de meditação de
duas vezes ao dia. Este resultado foi mais efetivo do que outros tratamentos
utilizados anteriormente.
Meditação
(MBCT) e Psicoterapias dinâmicas: uma interação possível
A interação da MBCT como uma atividade
adjuvante das psicoterapias é muito promissora. Mesmo sendo importante esta
sinergia terapêutica, a metodologia e as consequências desta parceria ainda
precisam avançar para se delinear com precisão que aspectos da consciência
plena são afetados pelos processos psicológicos da psicanálise, por exemplo,
assim que dinâmicas da psicanálise são mais afetadas pela meditação.
Mas já podemos assegurar que a meditação
pré-sessão ou mesmo em qualquer outro momento e circunstância, potencializa o
“relaxamento da atenção inibidora”, o que permite uma aumento quantitativo e
qualitativo de emissão de atos falhos - “lapsos da fala” pela lavra de S. Freud
-, uma das quatro formas de expressão do inconsciente reprimido ou recalcado.
Neste sentido, observamos em nossa clínica que os pacientes que foram incentivados a praticar a meditação, incluindo aí uma meditação de 10 a 20 minutos antes das sessões, também aumentaram a sua capacidade de lembrar dos sonhos. Os sonhos analisados desencadearam processos psíquicos mais frequentes de elaboração de material inconsciente, com resultados terapêuticos que vão desde a melhora no quadro neurótico inicial apresentado, até o encurtamento do tempo para surgirem os primeiros resultados mais visíveis para o psicanalista e principalmente o analisando.
Mesmo levando em consideração que o mestre
de Viena nos alertou que a “psicanálise é sempre questão de longos períodos de
tempo (...) de períodos maiores que o analisando espera” (Freud, 1996 : 145),
nada nos impede de agregar valores e descobertas científicas não disponíveis na
Viena Fin de Siècle.
E é neste diapasão de acompanhar o desejo de
Freud que a psicanálise pudesse dialogar e até se amparar também em novas
pesquisas, que pedimos carona nas “pesquisas do Center of Healthy Minds da
University of Madison-Winscosin, [que] já demonstram, que as psicoterapias
breves, tal qual a Psicoterapia Breve de Orientação Psicanalítica, são mais
eficazes quando agregam outras formas de práticas contemplativas de busca da
consciência plena em prol da saúde mental, tais como a meditação e determinadas
práticas de atividades físicas (...)”.
Talvez seja incentivador levar em
consideração o adágio do psicanalista britânico Wilfred Ruprecht Bion
(1897-1979) para quem o psicanalista poderia empreender movimentos não
exatamente psicanalíticos, mas jamais antipsicanalíticos. Alem do mais, diante
da tendência que a psicanálise tem à ortodoxia, resgato o pensamento de uma dos
maiores estudiosos do pensamento científico, Thomas Samuel Khum (1922-1996), o
qual, em sua “As Estruturas das Revoluções Científicas”, criticou a “paralisia
de paradigma” levada à cabo pelo “efeito paradigma”. Em sua visão, o pensamento
de ordem positivista é o que garante que um determinado conhecimento
mantenha-se dentro da moldura para melhor ser aceito pelos pares. Contudo, são nos
limites da moldura que estão sendo gestadas as soluções para os novos problemas gerado por
novos objetos.
A jornada é longa. Esta parceria está só se
iniciando e já apresenta resultados promissores. Não obstante as críticas que
certamente virão, o tempo dirá; alea jacta est.
Fontes Inspiradoras
CHINMOY, Sri. 222 técnicas de
meditação. [s.l] : [S.e], [s.d].
FREUD,
Sigmund. Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana (1901).
OPCSF-ESB, Vol. VI. Rio de Janeiro, : Imago, 1996. Cap. V: Lapsos da
fala, pp. 67-114.
FREUD, Sigmund. O Caso Schereber,
Artigos sobre a Técnica e outros trabalhos (1911-1913) . OPCSF-ESB,
Vol. XII. Rio de Janeiro, : Imago, 1996. Sobre o início do tratamento
(novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I - 1913), pp. 136-158.
LUTZ, Antoine; BREFCZYNSKI-LEWIS, Julie; JOHNSTONE, Tom e DAVIDSON, Richard J. Regulation of the Neural Circuitry of Emotion by Compassion Meditation: Effects of Meditative Expertise. Published: March 26, 2008. Disponível em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0001897. Acesso em 04/05/2017.
MENEZES, Wagner chagas de. PSICOTERAPIA
PSICODINÂMICA BREVE E SAÚDE MENTAL: eficácia e eficiência da Psicoterapia
breve de orientação psicanalítica. Disponível em: https://www.facebook.com/notes/psican%C3%A1lise-e-sa%C3%BAde-mental/psicoterapia-psicodin%C3%A2mica-breve-e-sa%C3%BAde-mental-efic%C3%A1cia-e-efici%C3%AAncia-da-psicote/1789542131361666/. Acesso
em: 11/04/2017.
KUHN, Thomas. A Estrutura das
Revoluções Científicas. São Paulo : Perspectiva, 1992.
Richard J.
Davidson, PhD. Mindfulness-Based Cognitive Therapy and the Prevention
of Depressive Relapse: Measures, Mechanisms, and Mediators. Disponível
em: https://centerhealthyminds.org/assets/files-publications/DavidsonMindfulnesBasedJAMAPsychiatry.pdf.
Acesso em: 12/04/2017.

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