MITOLOGIA DA PAIXÃO - Parte I: Afrodite, Eros e Psiqué no divã.

 


Apresentação

            A paixão foi um mecanismo de atração surgido em convergência com as leis da evolução e da perpetuação da espécie humana com o objetivo de proporcionar uma vantagem competitiva para a espécie humana.  Apaixonados, os casais humanos, desde sempre, tem maior probabilidade de manter viva a prole na fase crítica do crescimento, ou seja, dos 3 aos 4 anos de idade. Paixão nenhuma dura mais que isso.  A paixão é a resposta cultural a uma exigência da natureza.  O instinto humano o leva a buscar um parceiro(a), mas a escolha desse e não daquele homem ou mulher passa por filtros culturais; estes filtros, Freud denominava de desejo.

            Saber o que acontece quando a paixão acaba pode ajudar muita gente a passar mais rapidamente pelo luto, a dirimir o sofrimento e olhar a situação com mais racionalidade.  Mas não alimentemos ilusões sobre isso.

            O primeiro objeto da paixão de todos foi a própria mãe.  Até mesmo a mais megera das mães teve um filho ou filha que por ela foi apaixonado.  Não é por acaso que os casais apaixonados têm aquela sensação de fusão ou um desejo irrefreável de se fundirem; sentem-se como se fossem um só corpo.  Ora, todo ser humano um dia foi uma coisa só com o corpo da sua mãe; uma verdadeira simbiose a partir da qual os desejos e as necessidades eram satisfeitos naturalmente e automaticamente.  Já observaram que apaixonados quase não sentem fome, sono e sede? 

            Essa simbiose foi muito bem descrita na mitologia grega.  A mitologia, não obstante a cultura de cada tempo, carrega em si explicações arquetípicas para pensar as questões existenciais humanas que se situam em um campo de atemporalidade.  

 Eros, o deus da paixão, do "desejo ardente" e "incoercível dos sentidos" (p.219), nas palavras do grande mitologista Junito de Souza Brandão[i] era filho de quem?  O inconsequente Eros era filho de Afrodite, a deusa do amor. 

           


Afrodite, Eros e Psiqué

Afrodite era uma mãe castradora e repressiva.  Ela estava irada de ciúmes porque seu filho escolheu se emancipar ao apaixona-se por Psiqué, a mortal; Além disso, sentia-se devorada pela inveja porque Psiqué era de uma beleza espetacular.  Diante do seu sofrimento, resolveu de todas as formas acabar com tal romance. 

            Não é incomum que as mães morram de ciúmes da nora e muitas fazem de tudo para melar as relações dos jovens apaixonados.  No caso de Afrodite, a sua ira e inveja era ainda maior porque seus templos estavam sendo abandonados e suas chamas ficavam apagadas.  A metáfora é clara: os mortais estavam preferindo celebrar a beleza da vida com Psiqué e, depois, a paixão dela por Eros, do que exatamente o amor.   Esse amor era incestuoso, diga-se de passagem.  Afrodite assim se dirigiu à Eros: "Porventura desejas impor-me uma rival como nora?  Julgas, realmente, devasso, asqueroso, sedutor intolerável, que somente tu podes ter filho e que eu, por causa de minha idade, não mais poderia conceber?" (p.225).

            E quem é Psiqué? Psiqué é o sopro de vida personificado; "o princípio vital" (p.219), nas palavras do mestre Junito.   Então, o que o amor (Afrodite) invejava no casal Eros e Psiqué era a cegueira de ambos, mesmo ignorando que a paixão é cega.  Essa frase encerra em si muitas verdades hoje já conhecidas, pois a neurociência já sabe que durante a paixão o córtex pré-frontal sofre, literalmente, um apagão. 

O tal apagão ocorre em suas funções executivas, tais como a capacidade de diferenciar pensamentos conflitantes; de analisar as consequências futuras dos seus atos.  Há um colapso no sistema de metas definidas, tais como previsão em perspectiva dos fatos, planejamento futuro baseado em ações concretas e autocontrole do comportamento social.  Neste último caso, o córtex pré-frontal sucumbe na sua capacidade de planejamento: decisões, atenção, memória.  Do ponto de vista emocional, ele também perde a sua capacidade de ser responsável, já que toda e qualquer decisão não passou pelos filtros acima.  O apagão dessa parte do cérebro traz prejuízos, tais como um descontrole impulsivo e até agressivo, denotando inadequação social.[ii]

Não era por acaso que os encontros entre Psiqué e Eros no seu castelo ocorriam às escuras.  A regra era que Psiqué jamais poderia abrir os olhos para saber com quem todas as noites ela se deitava; do contrário, uma grande maldição cairia sobre eles e teriam que se separar, forçosamente.  O que de fato aconteceu.  Há uma bela representação por trás disso, ou seja, quem ousar ver o que está por trás da paixão; quem ousar conhecer quem é um e outro indivíduo de verdade, será castigado pela ausência é até com o fim da paixão.  Quando dois mortais se apaixonam há ali uma idealização de um e outro.  Com o tempo, conforme a contenção da razão vai cedendo e um vai conhecendo o outro exatamente como são,  os outrora apaixonados vão se angustiando. 

A sentença de Eros, presente na versão de Lúcio de Apuleio (125-170 dC), quando Psiqué decide ver quem era que estava por trás da paixão (Eros), ou seja, o sujeito realmente como ele era, sem a mediação da idealização, é significativo: "(...) quanto a ti, teu castigo será minha ausência".  Não é incomum vermos que mesmo os casais que permanecem juntos depois da paixão - raros - e conseguem evoluir para alguma forma de companheirismo amoroso, possuem uma certa nostalgia daqueles momentos idílicos proporcionados pela sensação de estarem apaixonados. 

            Depois de quase perder a vida para cumprir os quatro trabalhos impossíveis impostos pelo amor (Afrodite), enfrentando inclusive a morte, Psiqué pôde finalmente ficar para sempre com o seu amado Eros.  Os trabalhos de Psiqué foram uma imposição do amor (Afrodite), mas o resultado indireto é que a superação da paixão foi possível graças ao afastamento obrigatório de Psiqué da sua paixão.  Simbolicamente, Psiqué saiu numa aventura de recuperação da própria identidade; de recuperação da sua individuação, sem a qual, não haveria amor possível. 

            Afastados um do outro, Psiqué, o sopro da vida,  foi resgatada do sono eterno por Eros.  Ovservem que casais apaixonados quando brigam ou se separam caem em profundo estado de luto, podendo evoluir pqra a melancolia, e alguns até tentam e alcançam o sono profundo: a morte por meio de um ato final dramático e trágico.  A literatura está cheia de exemplos, sendo os mais famosos Tristão e Isolda, e Romeu e Julieta. 


Zeus, para resolver a questão, impôs um casamento monogâmico a Eros com suas bênçãos, tendo como testemunha todos os deuses do Olimpo. Zeus cumpriu para Eros uma função paterna, interditando o poder matrilinear de Afrodite e quebrando a simbiose mãe-filho. Doravante, Eros deveria "(...) refrear de uma vez por todas as desregradas paixões de sua juventude (...) galanteios e devassidões" (p.229).  Que tarefa hercúlea e conservadora!: o amor por sua vez deveria refrear a paixão.  Já Psiqué teve o seu sopro de vida imortalizado.  Ambos viveriam vidas tranquilas sem muitos arrebatamentos apaixonados na forma de uma espécie de “amor-companheiro”.  Desse casal nasceu Volúpia, mas não no sentido mundano que hoje se dá a essa palavra, e sim como prazer: a bem-aventurança.

Por Wagner Chagas de Menezes - Psicanalista e Historiador

[i] BRANDÃO, Junito de Souza.  Mitologia Grega, Vol. II, 23ª ed., Petrópolis, RJ : Vozes,  2015.

[ii] Ver: GONZÁLEZ.  Jesús Méndez.  Como funciona o cérebro de uma pessoa apaixonada.  Disponível em: https://www.facebook.com/notes/psican%C3%A1lise-e-sa%C3%BAde-mental/como-funciona-o-c%C3%A9rebro-de-uma-pessoa-apaixonada/1897085527273992/.  Acesso em 17/06/2019.

Foto 1ª: Psiquê reanimada por um beijo do Amor. Mármore: 1,55 de altura.  Artista: Antonio Canova (1787-1793). Conservada no Musée du Louvre, em Paris, França.

Foto 2: Afrodite de Siracusa.  Em mármore de Paros.  O pescoço, a cabeça e o braço direito são restaurações do famoso escultor italiano A. Canova (1757-1822). Cópia romana de um exemplar do século II d.C de um original grego do século IV a.C, atribuída ao escultor grego Praxiteles ( (Atenas, c. 395 a.C. – 330 a.C.)

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