MECANISMOS DE DEFESA DO EGO I: repressão


 

(Por Wagner Chagas de Menezes – Psicanalisa e Historiador)

 

  

Nas próximas postagens vamos publicar uma série de textos ligados aos mecanismos de defesa do ego.  Esperamos que a descrição deles ajude ao leitor a identificar qual deles é aquele a que se recorre para arrefecer um conflito psíquico..

 

 

 

 

Muitas vezes o Ego sofre uma pressão excessiva de angústia por causa dos arroubos do Id e por causa das proibições do Superego. Nestes casos, ele é obrigado a adotar medidas extremas para aliviar a tensão. Estas medidas são chamadas de Mecanismos de Defesa do Ego (MDE) e ocorrem para protegê-lo de uma dor psíquica eminente.

 

Os mecanismos de defesa possuem duas características. Primeiramente eles negam, falsificam ou distorcem a realidade. Além disto, atuam de forma inconsciente, de maneira que as pessoas não têm consciência do que está acontecendo. Para entender este mecanismo, não podemos esquecer que uma parte do ego é inconsciente.

 

Diante de uma situação eminentemente ameaçadora ou perturbadora, as pessoas se defendem inconscientemente da angústia gerada, distorcendo a realidade e enganando a si mesmas. Todos nós usamos estes mecanismos para proteger a nossa autoimagem.

 

Os mecanismos de defesa também podem se dividir em mecanismos defesa bem-sucedidos e mecanismos de defesa ineficazes. Os mecanismos de defesa bem-sucedidos exigem um gasto de energia suficiente para se eliminar a tensão daquilo que se rejeita - nestes casos, significa que a neurose a ser tratada não é de grande magnitude e, muito provavelmente, não traz grandes prejuízos pessoais e sociais. Já os mecanismos de defesa ineficazes exigem um gasto de energia muito alto, mas sempre insuficiente e ineficiente para eliminar a tensão daquilo que se rejeita. Neste caso há uma grande necessidade de ir somando inúmeras tentativas numa espécie de ensaio e erro para que a tensão não volte. Contudo, isto também é ineficaz e as ações defensivas vão se perpetuando. Neste caso, a ineficiência perpetua a neurose e os mecanismos de defesa funcionarão mais para se convencer a si do que para convencer o outro e a sociedade.

Os mecanismos de defesa, então, sempre entrarão em cena para bloquear ou amenizar a angústia toda vez que o movimento neurótico de recordar e reviver não desembocarem numa elaboração.

 

Os Mecanismos de defesa ineficazes, também conhecidos como Mecanismos Ineficazes de Defesa do Ego (MIDE) são bastante numerosos, então vamos começar por um dos mais comum:

 

1)     Repressão

 

“Tudo o que é reprimido foi originalmente proibido pelos pais, ou impedido pelas condições impessoais imutáveis do ambiente”. (Franz Alexander)

 

 

O Mecanismo Ineficaz de Defesa do Ego (MIDE) denominado repressão, ocorre quando uma lembrança inconsciente ou mesmo um desejo, ou seja, impulsos que vão contra os padrões culturais e morais pessoais e sociais, são instados a serem reprimidos pelo Ego por demanda do Superego.

Cabe ressaltar que tais impulsos, mesmo tendo origem Inconsciente, encontram-se instalados no Pré-consciente, sendo que a repressão é o que impede que eles passem para o campo consciente e se realize, mas são impedidos pela censura do Superego. Na repressão, os impulsos que não podem ser integrados ao ego são sumariamente ainda mais interiorizados para que não desencadeiem ansiedade, culpa e autocondenação. Contudo, às vezes o conteúdo reprimido ameaça irromper à consciência, gerando uma manifestação consciente na forma de ansiedade.

 

A Característica fundamental da repressão é que os impulsos e suas representações ideacionais conscientes são reprimidos já no inconsciente, ainda que tentem burlar a censura, como ocorre nos lapsos da falha. Esta repressão é um reflexo condicionado e não um julgamento deliberado.  Um bom exemplo é aquilo que a psicanálise chama de “difusão de uma inibição”. Esta “difusão” é o processo que transforma a repressão aos primeiros impulsos sexuais incestuosos num ressentimento em relação àquele interdito, o qual aparece na forma de uma timidez geral na adolescência.

 

O ponto central que liga a repressão às psiconeuroses é que ela é realmente exagerada e excessivamente severa com tendências que um ego consciente elaboraria sem problemas. Em outras palavras, a tensão a qual a repressão submete o sujeito é muito maior e insuportável que o reprimido revelado na terapia psicanalítica.

 

Resumidamente:

“Na terminologia da teoria original estrutural, o ego age sobre a chave dada pelo superego e rejeita a tendência do id, condenada, e com isso provoca a repressão. O medo do superego, experimentado pelo ego, é o sinal que adverte este último para reprimir os impulsos antes desaprovados pelos pais.” (ALEXANDER, 1976, 84)

 

A repressão leva à ansiedade e até a alguma forma de paralisia na medida em que o sujeito fica exposto entre as necessidades do id e a sua negação pelo superego.  A solução de compromisso entre estas instâncias, costumeiramente leva a um conflito psíquico porque o código preponderante é o do superego. Este é um processo de domesticação – ajustamento ao tido e aceito como o normal porque estão relacionados com as exigências originais dos desejos não sociais.  Um bom exemplo é a tendência coprofílica das crianças; ao mesmo tempo em que o ato de defecar gera alguma satisfação em função da dilatação da ampola retal, costumeiramente também provoca alguma rejeição paternal. Como a criança depende totalmente dos pais até que ela aprenda a fazer a própria higiene pessoal, ela reage com ansiedade à rejeição.  Em casos mais graves, tal rejeição pode ser manifestada na forma de castigo corporal ou na forma de reprovação. Em ambas há, por parte da criança, a interpretação do fato como a retirada da afeição paterna. Contudo, o impulso permanece e é incontrolável para a criança, mas por repressão, não mais no consciente e sim no inconsciente, gerando a repugnância no consciente.

 

Ao nível consciente, as tendências estranhas ao ego e que ameaçam irromper à consciência, provenientes das profundezas do inconsciente, figuram na forma do oposto: crueldade por piedade, por exemplo.

 

A repressão é um importante mecanismo de defesa porque atende às exigências sociais na medida em que força o sujeito a abrir mão da realização de desejos, muitas vezes adiando a sua realização.  Este é um doloroso aprendizado de crescimento.

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